Rubem Braga
segunda-feira, março 26, 2007
Rubem Braga
quinta-feira, março 15, 2007
Com a ida do deputado Geddel Vieira Lima para o ministério do segundo mandato do presidente Lula, quem assume a vaga do mandato é o forrozeiro Edigar Mão Branca. Primeira suplência da coligação das eleições de outubro passado (PSB, PMDB, PV e PPS), Mão Branca chega à Câmara dos Deputados por força e desejo dos 23.411 votos saídos de 215 municípios. O músico disse que está louco para assumir o mandato e pedir para o presidente Lula (se for necessário) e ao governador Wagner uma outra alternativa que não a interdição da Serra do Maçal, nas proximidades de Vitória da Conquista. “É um transtorno para toda região”. Com oito discos vinil e 10 CDs gravados – o último, “Forró federal”, foi recentemente lançado em São e Paulo e logo será em Salvador –, o futuro deputado verde diz com muita simplicidade que pretende atuar no Legislativo nacional da melhor forma possível. “Sei que vou encontrar a burocracia pela frente, mas vou desenvolver as propostas de dias melhores, como digo nas minhas canções, para o Brasil e para minha Bahia”. Atualmente, o Estado só tem um deputado federal do PV, que é Edson Duarte.
terça-feira, março 13, 2007
Eles ligaram e não foram atendidos
Naquela noite, depois de lerem no noticiário pela internet que o presidente Lula tinha recebido o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), o convidado para ser ministro da Integração Nacional e ainda marcado uma audiência para a terça-feira com o presidente do PMDB, Michel Temer (SP), Renan e Sarney tentaram desesperadamente falar com o presidente.
O PMDB governista, que integrou o conselho de campanha da reeleição, estava reunido na casa do presidente do Senado. Estavam lá, além de Renan e Sarney, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), o ex-presidente do STF Nelson Jobim, o presidente da Infraero, Sérgio Machado, e os deputados Jader Barbalho (PA), Olavo Calheiros (AL), Anibal Gomes (CE) e Rocha Loures (PR). O governador Eduardo Braga (AM) chegou mais tarde e disse a eles que tinha cruzado com Geddel saindo do gabinete do presidente e completou: "Ele estava com um sorriso de ministro".
A primeira ligação para o presidente Lula foi feita por Renan Calheiros. O funcionário do governo que atendeu no Palácio da Alvorada informou que o presidente não poderia atender porque estava recebendo algumas pessoas. O tempo passou, os que estavam na reunião fizeram contato com o governador Roberto Requião (PR). Renan Calheiros voltou a ligar para o Alvorada. Desta vez, o presidente não pode atendê-lo porque estava sentado à mesa de jantar.
Alguém teve a idéia de ligar para o ministro Tarso Genro. Foram feitas duas ligações. Uma delas pela senadora Roseana Sarney (MA), no momento em que chegou na reunião. O ministro, que participara da audiência com Lula e posara para foto ao lado de Geddel e do governador Jaques Wagner (BA), estava inacessível. Ele desligara o celular.
A última ligação foi feita pelo presidente Sarney. Ele ligou para o Alvorada e disse: "O presidente do Congresso quer falar com o presidente da República agora, vá chamá-lo". Recebeu a informação de que o presidente Lula tinha sido informado das ligações anteriores, mas que não poderia atender a esta nova ligação porque já tinha se recolhido aos seus aposentos.
Os que lá estavam, sentindo-se abandonados, traídos e desconsiderados, pois o presidente Lula fizera o que eles haviam pedido que não fizesse num encontro que tiveram no domingo no Palácio da Alvorada, decidiram não disputar mais a presidência do PMDB. A situação já era difícil para Jobim, mas eles avaliaram que aqueles fatos, na semana da convenção, eram uma pá de cal nas possibilidades já escassas de vitória.
Jobim foi encarregado de redigir a nota de renúncia e Renan recebeu a missão de fazer uma nova ligação para o presidente às 8h30 da manhã de terça-feira. Desta vez, o presidente atendeu o presidente do Senado e recebeu em primeira mão a informação de que Jobim renunciará à candidatura e que os governistas não participariam da convenção. Renan encerrou sua fala dizendo que a partir daquele momento eles sentiam-se liberados.
Para que não está familiarizado:
1. "toco" quer dizer dar um fora em alguém;
2. "bina" é um dispositivo para identificar o número que liga para seu fone e que tem em todo aparelho celular;
3. aplicar um "toco bina" é não atender deliberadamente alguém, justamente por saber de quem se trata.
segunda-feira, março 12, 2007
Lula jogou pesado contra ele e elegeu Jacques Wagner (PT) governador. Na semana passada, acertou com o PMDB a nomeação para o ministério da Integração Nacional do mais feroz adversário de ACM, o deputado Geddel Vieira Lima.
Então decretou radiante: “Apliquei um garrote em Antonio Carlos”.
Por cima, Wagner desmonta a máquina que ACM levou mais de 40 anos para montar. Por baixo, a dois anos das próximas eleições municipais, Gedel cuidará do ministério que mais tem dinheiro para firmar convênios com prefeituras.
Lula é mau como um pica-pau.
Fonte: Blog do Noblat
segunda-feira, março 05, 2007
A esta altura, se a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy fizer parte do novo ministério que poderá ser anunciado a qualquer momento, foi porque o PT forçou a entrada dela, e não porque Lula a escolheu livremente. Lula morde e assopra aliados e adversários. É o jeito dele de fazer as coisas. No caso de Marta, mordeu mais do que assoprou.
Lula está careca de saber que Marta é a candidata número 1 do PT ao cargo de ministra. De preferência ao cargo de ministra de Cidades. Daqui a dois anos haverá eleições municipais. E o PT precisa se dar bem em municípios de médio e grande porte onde tem encolhido. Nos pequenos, o efeito dos programas assistencialistas do governo sustentará um desempenho razoável do partido.
E ainda tem mais: as eleições estaduais de 2010 e a presidencial.
Marta é um dos raros nomes do PT com envergadura política, capacidade de arranjar dinheiro e ambição para disputar a sucessão de Lula. Ou a sucessão de José Serra, se esse largar o governo de São Paulo para concorrer novamente à presidência da República.
Se não der para entregar Cidades a Marta, o ministério da Educação estaria de bom tamanho para ela.
Mas o que fez Lula sabendo disso? Autorizou o PP a anunciar que ele lhe garantira a permanência em Cidades do atual ministro Márcio Fortes – e a garantia de fato foi dada ao líder do PP na Câmara dos Deputados na presença de várias testemunhas. E foi reiterada mais de uma vez.
Para completar, desde então Lula só faz encher a bola do atual ministro da Educação Fernando Hadad. Não se cansa de elogiá-lo.
Por encomenda de Lula, Hadad costurou às pressas para sua área uma espécie de Programa Acelerado do Crescimento (PAC).
É a mais nova jóia da coroa de Lula – o programa, não Hadad. Ou pensando melhor: Hadad. Programa serve de desculpa para tudo.
E agora? Onde encaixar Marta? Arranjando encrenca com o PP que tem 50 votos na Câmara? Nem pensar.
Pobre Marta. Está calada, caladinha. Elegeu meua dúzia de deputados federais - entre eles Antonio Palocci, que jamais havia sido bem votado na capital.
Suou o tailleur para aumentar a votação de Lula em São Paulo no segundo turno da eleição do ano passado. Foi a única das estrelas do PT paulista que escapou sem arranhões aos escândalos que macularam o primeiro governo de Lula.
E para quê? Para, em troca, ganhar a condição quase inédita de ministra fritada em público antes mesmo de ter seu nome confirmado para o ministério.
Se chegar lá, baleada, será sob fogo dito amigo disparado pelo matador mais impiedoso que já passou pelo cerrado.
Como coordenador político do governo Lula é um excelente contador de histórias.
Reeleito com 60 milhões de votos tinha capital político suficiente para montar o ministério como quisesse – mas não. Subiu nos tamancos e inovou empurrando com a barriga uma tarefa que lhe custaria menos se enfrentada nos primeiros dez minutos de jogo.
Disse na semana passada que jamais gozou de situação tão confortável. Que ninguém o pressiona por cargos. Que se sente à vontade para montar o ministério.
Conversa. Está sob pressão, sim, porque se deixou ficar. Está atrapalhado, sim. Enfrenta dificuldades para compor sua futura equipe.
Seus áulicos vendem a lorota de que ele atrasou a reforma por sabedoria e para não deixar dúvidas sobre quem manda. O atraso teria deixado os partidos mais sujeitos à sua vontade.
Deu-se o contrário. Os partidos estão ressentidos com ele e em cima dele.
É impublicável o que se diz de Lula em certos círculos do PT. O mínimo que se diz é que ele traiu o partido. Que está pouco se lixando para o partido.
Quanto a Marta, se deixada de fora do governo, Lula pelo menos terá se livrado de um candidato à vaga que poderá ocupar pela terceira vez consecutivamente ou não.
domingo, março 04, 2007
Foto: João Fontoura
sexta-feira, março 02, 2007
* Provocado sobre a idéia de tentar obter um terceiro mandato presidencial consecutivo, ele primeiro respondeu que isso seria "muito improvável e inexequível". Lembrado de que "improvável" não significa "impossível", foi mais incisivo: "Eu acho impossível. Nada é impossível, mas não tem hipótese. É brincar com a democracia". Disse ainda: "Eu fui eleito de acordo com a legislação existente".
(O que sobra aí como repulsa à idéia é o trecho "mas não tem hipótese. É brincar com a democracia". Porque "improvável e inexequível" não significa de fato "impossível". E embora tenha dito em seguida que achava a idéia "impossível", ele logo emendou: "Nada é impossível". Quanto ao fato de ter sido eleito de acordo com "a legislação existente", ela pode mudar. Há projetos no Congresso que acabam com a reeleição para cargos executivos. E uma vez que a reeleição acabe, abre-se a brecha para que Lula possa, se quiser, concorrer a um novo mandato. Por que ele simplesmente não disse: "Não disputarei em hipótese alguma um terceiro mandato consecutivo". Era o que bastava.)
* Lula admitiu, indiretamente, que não estava preparado para ser presidente quando disputou sua primeira eleição em 1989. "Dou graças a Deus [por ter perdido]. Esses 13 anos de espera foram uma universidade, um mestrado, um doutorado e... o que se faz depois disso? Ah. Sim. Pós-doutorado".
(Por pouco ele não foi eleito em 1989. Se agora dá graças a Deus por ter perdido daquela vez, imagine-se do que o país se livrou... Livrou-se dele para cair no colo do siderado Fernando Collor de Melo, que agora reconhece o erro de ter confiscado a grana dos brasileiros com seu fracassado programa de combate à inflação. A lamentar, o fato de que as consequências só vêm depois.)
* Lula voltou a repetir que não tem pressa em fazer a reforma ministerial: “Nunca estive numa situação tão favorável. Não há pressão. Estou à vontade.”
(Se está à vontade, se nunca viveu situação tão favorável, se ninguém o pressiona por cargos, por que governa há mais de 60 dias com um ministério provisório? Só por capricho? O governo está parado. Bate ponto de manhã e à tarde. E aguarda a palavra do chefe. Quem é maluco de pensar no futuro se não sabe se será confirmado no cargo ou mandado embora? Quem tem ânimo em uma situação dessas para entrar em bola dividida?)
* A respeito do crescimento da violência no país, Lula comentou: “O ser humano pode agir emocionalmente e ter o desejo de descarregar uma arma na cabeça de quem pratica certas barbaridades. Mas o Estado não pode agir assim”.
(Não lhe peçam reflexões mais profundas sobre o tema. Nem o anúncio de providências eficazes para combater a insegurança que nos esmaga. Lula joga a culpa de tudo nos governos passados. E é até capaz de justificar a violência como uma "questão de sobrevivência".)
* Lula confessou ter ficado comovido com o filme A Marcha dos Pingüins, documentário sobre a epopéia reprodutiva do pingüim imperador. Sugeriu ter chorado durante o filme. E por fim observou com sapiência: “É a coisa mais difícil ser pingüim. Os pingüins sofrem mais do que nós. São mais indefesos.”
(Os jornalistas não se comoveram com a confissão de Lula, mas a registraram como lhes cabia fazer - é tal o peso da palavra do presidente da República entre nós.)
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Pois Abdenur os apresentou. Levou à Comissão de Relações Exteriores do Senado três livros que foram incluídos na bibliografia obrigatória do Itamaraty no governo Lula. Um deles, disse Abdenur, traz a idéia de que o Brasil pode ser “varrido” pelos Estados Unidos, uma crítica à Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e uma clara demonstração de anti-americanismo.
- As chefias do Itamaraty não têm o direito de impor suas preferências aos subordinados -, afirmou. – Eu entendo que haja razões de queixa e de ressentimentos com os Estados Unidos (...) Mas o Brasil precisa livrar-se dos Estados Unidos em definitivo como referência para a definição da persona do País no plano internacional.
Pra completar, confirmou que diplomatas que se alinham a essa ideologia são promovidos mais rápido que os demais. Crítica feita, mas ao vento. Suplicy não estava na comissão.
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
Durante uma festa desse porte, com gente de todos os estados do Brasil e do mundo, é impossível não testemunhar situações hilárias acontecendo o tempo todo, tais como: 2 Capitães América valsando ao som do Bolero de Ravel imediatamente antes de serem atacados pelas terríveis "Muquiranas", um carinha carregando um Mickey de pelúcia abraçado numa lata de cerveja, cordeiros pra lá de Oxóssi fumando tudo até a última ponta enquanto fazem o seu difícil trabalho, ver uma tropa de Gandhys que nunca se viu antes invadir um bloco e lá dentro ficar combinando estrategicamente a melhor maneira de segurar a multidão pra sair todo mundo correndo de uma vez só numa arrojada manobra digna de uma experiente falange espartana, além de observar bêbados fazendo a felicidade de muitas cordeiras e vendedoras de amendoim pela cidade e o resto da mulherada com os olhos ardendo por conta da Alfazema do Gandhy serem vítimas de cantadas completamente desajeitadas ao lado do trio impossíveis de serem ouvidas em função do extremo barulho serem bem-sucedidas, ou ainda mais engraçadas: as mal-sucedidas, sempre levadas na esportiva.
Outro momento mágico: a felicidade que eu vi no olhar das crianças para quem eu e outros Ghandys distribuimos alguns dos colares é o tipo da coisa que eu vou levar pra sempre comigo. Aquilo parecia algo inalcançável pra elas, sei lá, de repente surge aquele super-herói (fala sério, a roupa de Gandhy parece uniforme de personagem de HQ) e faz aquela inesperada boa ação... e depois some na multidão sem nem lhe dar tempo de dizer "obrigado"... é comovente, mas, assim como a Matrix e tantas outras coisas na vida, vc tem de ver por si mesmo pra entender...
Outro ponto positivo: esse ano praticamente não vi violência, e quando aconteceu foi dentro do próprio bloco, dois boyzinhos criados com leite Ninho se estranharam e ficaram de vingancinha um com o outro. Resultado: um nariz sangrando e dois abadás rasgados pelos seguranças do bloco q expulsaram os palhaços brigões pra fora do bloco... patético, mas bem feito. Além de tudo isso carnaval é uma daquelas cada vez mais raras oportunidades de se reencontrar amigos ausentes e amores esquecidos, gente que a vida traiçoeiramente afastou de nosso círculo de convivência diária, mas não o bastante para que deixemos de admirá-las ou sentir carinho e afeição como meu bom amigo Jones a quem invariavelmente encontro, já chapadaço, na frente do trio de Armandinho, Dodô e Osmar lá no finalzinho do circuito em Ondina, perto da casa dele, como acontece há mais de 10 anos.
Acho que minha única crítica é esse fenômeno da "camarotização" do carnaval. Eu, particularmente, me recuso a pagar camarote. Pagar pra ver os outros se divertirem não é a minha praia. Sim, eu entendo a questão da segurança e entendo que qualquer casal que não tomou a sábia decisão de viajar para bem longe da muvuca deve evitar circular na avenida sem uma boa dose de paciência e atenção, mas, para qualquer homem não acompanhado não há outra opção melhor do que a rua. Quer dizer, tem momentos que fica apertado mesmo, principalmente ao redor dos trios mais populares e por populares eu não quero dizer Camaleão ou Asa não senhor, eu me refiro aos Psiricos e Harmonias do Samba da vida que atraem igualmente uma massa descomunal de fãs, mas sem a estrutura de cordas, camarotes e segurança dos grandes blocos. De qualquer forma, eu não sou o seu público-alvo...
Mas, enfim, nunca mais pretendo pagar pra sair em nenhum bloco de carnaval que não seja o Ghandy. Isso não quer dizer que eu vá, necessariamente, sair ano que vem de novo no Ghandy, mas quer dizer, isso sim, que no próximo ano que eu sair no carnaval, seja lá quando for, será certamente fazendo parte do "tapete branco", ajudando a espalhar a paz, a alegria e o cheiro de Alfazema ao invadir todos os outros blocos, e, certamente, curtindo muito a guitarra de Armandinho desde a Barra até Ondina sem me importar com o estado lamentável das minhas sandálias.
AJAIÔ!"
sábado, fevereiro 10, 2007
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
Brincadeira do deputado Gedel Vieira Lima (PMDB-BA), cotado para ser ministro de Lula, ao encontrar ontem à noite no restaurante Piantela, em Brasília, o deputado Paulo Renato (PSDB-SP):
- Não quero conversa com você que virou xiita. Só quero conversa com o companheiro Serra.
Oito votos do PSDB paulista asseguraram a vitória de Arlindo Chinaglia (PT-SP) para presidente da Câmara dos Deputados.
Serra jura que nada teve a ver com isso.
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Duas extensas esteiras rolantes, uma para ir e a outra para voltar, correm paralelamente, separadas por poucos metros, ligando o anexo 3 e o anexo 4 do prédio da Câmara onde os deputados têm seus gabinetes.
A deputada Manuela D´Avila (PC do B), 25 anos, recodista de votos no Rio Grande do Sul, foi aprovada há pouco com louvor no teste da esteira. Ela voltava do anexo 4 para o anexo 3. A multidão de marmanjos que ía em sentido contrário se voltou automaticamente à passagem dela. Parecia mais uma cena ensaiada muitas vezes. Alguns mais velhos ficaram com torcicolo.
segunda-feira, janeiro 22, 2007
De nada disso ele se queixa – pelo contrário. O que o incomoda mesmo é um zumbido no ouvido que o acompanha desde a infância, uma dor de lado que apareceu recentemente, a violência que o impede de circular no Rio com a desenvoltura do passado e... Bem, e Lula, para variar. E Hugo Chávez com a idéia de se eternizar no cargo de presidente da Venezuela. E a esquerda brasileira que chegou ao poder sem dispor de um projeto para o país e que de uns tempos para cá resolveu pegar no pé da imprensa acusando-a de ser contra o povo. Está bom ou quer mais?
Ó paí, ó, quer dizer “olha praí”. É uma gíria baiana que virou título do longa metragem da cineasta Monique Gardenberg que estreará em março. Caetano fez a letra da música do filme - um frevo em parceria com Davi Moraes. E gravou junto com o cantor Jauperi (ouça aqui). Então com a devida licença, ó paí, ó, o que Caetano andou dizendo às vésperas do seu show desta noite no Morro da Urca destinado a celebrar o dia de São Sebastião, o padroeiro do Rio:
“A primeira vez que fui ao Rio tinha 11 anos de idade. Depois, entre os 13 e os 14 anos morei na casa de minha prima Mariinha, a quem chamava de “minha Inha”. Ela vivia em em Guadalupe. Eu tinha problemas de saúde, nenhum muito sério. A garganta estava sempre inflamada. O fato é que em toda a minha vida eu nunca me senti muito bem. Não quer dizer que não tenha sido feliz, nem que não tenha vivido prazeres intensos. Mas nunca me senti fisicamente bem.
Acabei me fixando no Rio a partir de 1975 quando já era casado com Dedé e Moreno tinha três anos de idade. Moreno e Tom nasceram na Bahia e Zeca no Rio. Estranhamente, ainda me sinto à vontade para morar no Rio apesar da violência. Mas sinto também a angústia instalada na cidade. O Rio, como diz o João Gilberto, é a cidade dos brasileiros. Tudo que acontece com o Rio afeta a totalidade do Brasil e de alguma maneira expressa o que o Brasil tem a dizer.
No momento, a impressão que o Brasil dá é de ser um país habitado por uma gente cruel, impiedosa e autoritária. O esquema de territórios incrustados num centro urbano como o Rio, disputados por chefes e milícias extra-oficiais, onde episódios de extrema brutalidade se sucedem, é justamente uma imagem oposta àquela do sonho de harmonia e de cordialidade que sempre dominou o imaginário brasileiro. Dói. Mas sou teimoso. Acho que essas impertinências hiperbólicas não deixam de ser estimulantes.
O quadro de violência decorre apenas da falência do Estado?
Tem a ver com a sociedade. A maneira como se pensa o papel do Estado e as conseqüências sociais desastrosas se devem ao modo como se pensa a economia, a cultura, o poder, tudo Há um certo desequilíbrio na forma como a sociedade encara tudo isso. As favelas de São Paulo são invisíveis e quando seus habitantes se manifestam parecem apenas zangados. As do Rio são estrelas da cidade. Por outro lado elas são muito próximas das áreas ricas, o que não acontece em São Paulo.
Uma vez encontrei uma menina da favela de Cantagalo sentada perto da Pedra do Arpoador. Ela me disse assim: “Essa pedra é minha”. O favelado pode dizer isso. Por outro lado, tenho amigas granfinas que não perdem um desfile das escolas de samba. O Rio é uma cidade assim, não é discriminatória como São Paulo. Ela é resultado de uma mistura física e de uma mistura imaginária. Poderia estar melhor. Mangabeira Unger tem razão ao dizer que o PT despreza a maioria desorganizada do povo.
Ó pai, ó. Mangabeira acabou apoiando Lula no segundo turno
Acho coerente. Eu quase votei em Lula no segundo turno justamente por causa do Mangabeira. Acabei votando no Alckmin. A aproximação de Mangabeira com Lula me deu esperanças e ainda me dá. Votei em Lula em 2002, mas sempre fui contra a reeleição. Por exemplo: não votei em Fernando Henrique Cardoso quando ele disputou o segundo mandato.
Naquela época, a imprensa foi claramente expositiva e denunciou os procedimentos poucos louváveis dele e do seu grupo para obterem a reeleição. Não é verdade que agora a imprensa foi destrutiva em relação a Lula porque ela é contra o povo. Eu tenho horror a essa conversa. Defenderei a imprensa brasileira até o fim contra tal argumento, embora tenha sérios problemas com ela. No momento, por exemplo, estou processando a VEJA e ganhei a ação na primeira instância.
Não sou muito leitor de jornais. Mas tiro conclusões rapidamente, o que pode parecer um defeito, mas é também uma marca de um determinado tipo de temperamento. Mesmo com poucos elementos minha cabeça tende a criar uma teoria. Se erro mais ou acerto mais? Não sei. Acerto muitas vezes. Mas minhas elaborações mentais a respeito das coisas são meio temerárias, reconheço - afinal eu sou artista e isso é perdoável em um artista. Sigo meus sentimentos.
Por isso queria votar em Alckmin no primeiro turno e anunciar de público, como fiz. E me preparei para votar em Lula no segundo turno. Sabia que ele ganharia. Quando votei em Lula em 2002 fiquei muito emocionado. Acho emocionante o ato de votar. Chorei dentro da cabine. Veio na minha cabeça aquele histórico de Lula e do Brasil em relação a pessoas que tiveram a mesma origem de Lula. Foi um acontecimento histórico de grande importância.
Achei que a volta do Brasil à democracia seria difícil. Porque um país que produz aquela ditadura, aceita as pressões norte-americanas, alimenta a mediocridade interna a ponto de viver aquelas coisas da maneira que viveu, não pode ficar de repente bonzinho porque a democracia foi restabelecida. A Constituição idealizada escrita por Ulysses Guimarães e um bando de malucos não nos garantiria uma vida maravilhosa. Nunca tive esperanças irrealistas. Já me bastava que pessoas com um histórico razoável chegassem ao poder.
Cara, nós tivemos Fernando Henrique como presidente e depois Lula. Infelizmente, Fernando Henrique inventou a reeleição. E agora que Hugo Chávez inventou reeleição atrás de reeleição, entende? É uma coisa horrenda. E é preciso que se diga em altos brados “Ó praí, ó...” Veja o enorme perigo que existe nisso. Suspender, como ele anunciou que fará, o funcionamento de uma empresa de comunicação, é ruim. E planejar uma permanência indefinida no poder é pior ainda. Eu tenho uma certa raiva da esquerda...
Eu disse que defenderia a imprensa brasileira até o fim porque acho que a acusação que a esquerda faz contra ela é perigosíssima. É um absurdo dizer que a imprensa tentou destruir o governo Lula de maneira golpista. Os escândalos que aconteceram, aconteceram. E eles caíram no colo da imprensa. Eu tenho certeza disso. Ser mais simpática e cuidadosa com Lula como a imprensa foi seria igual a Cuba. Seria como ter um só jornal e mesmo assim do governo.
Não pode existir só a CARTA CAPITAL que é a VEJA do Lula. Tem que ter a VEJA também. Diogo Mainard é um moderado se comparado com Paulo Francis [ex-colunista do jornal O Estado de S. Paulo].
O que pesou mais para eu não votar em Lula foi ele ter usado no segundo turno o fantasma da privatização das empresas. Achei um recurso falso demais. Eu me senti mal. É claro que a reação dos tucanos e do próprio Alckmin foi de dar dó. Parecia que a privatização era uma coisa abominável Foi a volta a um esquerdismo ingênuo, ultraprimário. Eu disse mais de uma vez que pensando o que penso e sabendo o que sei, se eu votasse em Lula estaria agindo como um imbecil. Mas respeito quem votou nele.
É indiscutível que Lula tem vocação para política, mas política no sentido de se dar bem. Ele fala que foi traído e acusa os aloprados. Mas depois aparece elogiando Zé Dirceu e Palloci. Quem foi que traiu ele? Aí o Zé Dirceu vem e diz: “Agora eu saio”. Aí Lula deixa transparecer: “Você fica aí, quieto, depois o tempo passa, a gente aí vê, afinal a esquerda está no poder e sem mim não estaria...” Isso é política. O petismo pode morrer, mas o lulismo, não. Mas o que é que Lula quer propriamente fazer? Qual é o programa dele?
Começamos com esse negócio de Fome Zero e [Henrique] Meirelles [na presidência do Banco Central]. Como se fosse o equilíbrio. Francamente... O próprio Frei Betto [ex-assessor especial de Lula] ficou meio indignado. Tem uma porção de coisas aí que não são necessariamente ruins. O Bolsa Família, por exemplo. Mas não se pode ficar no assistencialismo que desestimula a produtividade. Eu sou favorável a aumentar o salário mínimo. Mas deveria haver uma política que estimulasse a produção.
Deveria haver também uma ponte mínima de naylon, finíssima, entre o que Palocci fez junto com Meirelles e as demagogias da Cultura e do assistencialismo. O Serra tem um projeto para a economia que pensa globalmente a questão do social, do desenvolvimento e da inserção do Brasil na economia mundial. Mas eu nunca vi algo parecido com isso exposto com clareza por Dirceu, Lula ou Palocci. Não vi no primeiro governo e até agora também não. Parece que não existe.
Existe um risco muito grande na esquerda e eu sempre tive problemas com ela. Por ser assim como sou, esquerdo para a esquerda, eu vejo que ela sempre tende para um negócio arriscado. “Nós temos que estar no poder porque somos os melhores. Depois a gente vê o que faz”, ela pensa. Não projeta, não planeja suas ações. Eu vi isso com Waldyr [Pires] na Bahia. Eu fiz campanha por ele para ajudar a acabar com a hegemonia de Antonio Carlos na Bahia. Depois do governo de Waldyr, a Bahia ficou mais de ACM.
Se há um grande talento político que floresceu na Bahia foi ACM. Com alguns resultados grandiosos e perfeitamente visíveis. Agora, ele é o tipo da coisa que eu gostaria que a Bahia já tivesse se livrado há décadas. Fiquei muito contente quando [Jacques] Wagner se elegeu governador. Foi uma surpresa boa. Acho que ele é um sujeito bacana. ACM para mim é uma coisa ultrapassada. Dar ao aeroporto de Salvador o nome de Luiz Eduardo Magalhães foi uma coisa grotesca. O aeroporto deveria voltar a se chamar 2 de Julho.
Como ACM, também acho Chávez uma coisa antiga. A burka é uma coisa antiga e medieval, mas não deixa de ser uma novidade, não é? Chávez sabe jogar com elementos que entram no imaginário coletivo. Socialismo 21... Ele está dizendo tudo. É como burka. Você fala em burka e logo vem uma imagem que se tornou típica do século 21. Chavez também é assim. Isso não quer dizer que eu seja a favor da burka nem de Chávez. Ele quer ficar no poder e quer a imprensa a favor dele. Isso é coisa que a esquerda adora.
Você teme que Lula se veja diante da tentação de querer ficar mais tempo no poder?
Eu acho que sim. Lula já disse algumas vezes que na China é que é bom, que ninguém atrapalha, não tem que esperar os deputados decidirem. A admiração dele por Chávez e vice-versa é manifesta. Uma vez Lobão, roqueiro e meu amigo, criticou Alexandre Pires, cantor de pagode, por ter se emocionado ao cantar na Casa Branca. Mas naquela semana ou um pouco antes, saiu uma foto de Zé Dirceu abraçado a Fidel Castro e chorando. Eu pensei: Por que o Lobão está reclamando do Alexandre Pires?
Lobão disse que Alexandre Pires não o representava, que se envergonhava daquilo. Alexandre é um rapaz do interior de Minas, é preto, e de repente se viu no centro do poder mundial e ficou emocionado. Eu não ligaria a mínima para isso, mas eu sou um aristocrata. Agora, o Zé Dirceu era o nosso representante oficial... E chorou no ombro de um homem que é ditador há mais de 40 anos. Bush é medíocre. Foi posto lá para fazer o serviço sujo do império. Mas vai embora depois de oito anos. Fidel, não.
Você critica Lula por lhe faltar um projeto para o país. Alckmin tinha algum?
Não. Não vi. É claro que o Serra quando foi candidato em 2002 tinha projeto – mas eu votei em Lula. O momento era dele. As pessoas tinham o sonho maluco de que Lula seria a salvação. Lula pode até chamar Delfim Neto para junto dele e ninguém vai achar nada demais. Por que? Porque ele é tido como de esquerda. Como se Serra e FHC fossem de direita. Serra tinha um programa para a economia muito menos ortodoxo do que o de Lula e muito menos atrelado aos interesses americanos.
Acho que no governo Lula se avançou pouco. A economia não cresceu. Esse negócio de nacionalismo antiprivatista, isso é Geisel [Ernesto Geisel, general, presidente da República na época da ditadura militar de 64]. Às vezes ouço criticas a respeito de FHC. Como se o governo dele tivesse sido uma mera continuidade dos anteriores. Aí eu digo: Bicho, FHC lutou contra a ditadura de braços dados com Lula. Delfim Netto, não. FHC interveio mais na economia porque ele é mais de esquerda.
Minha expectativa em relação ao segundo governo Lula é matizada pelo desejo de que as coisas andem bem. O modo como a democracia foi restabelecida no Brasil superou meus melhores sonhos. Eu queria que em 1989 o Brizola ganhasse do Collor. Lula seria um desastre naquela época. Eu não gostava da idéia de eleger um governo de esquerda com aquelas fantasias. Em 2002, não. A Carta aos Brasileiros assinada por Lula mostrou que ele amadurecera. E que o PT também mudara.
Por ora é muito cedo para se pensar no pós-Lula. Ninguém sabe se ele não vai querer ficar indefinidamente no poder como Chávez quer.
Você fala sério?
Não, não acho que ele queira, mas não sei. Apesar do Brasil estar se manifestando mais por meio de seus aspectos de brutalidade, crueldade e intolerância, o país é mais sofisticado e mais complexo do que a Venezuela. A economia e a mentalidade cultural brasileira são mais complexas, mais modernas. Tal coisa não permitiria que Lula caminhasse para o modelo Chávez. Claro que há um certo otimismo nessa minha colocação. O otimismo talvez decorra do meu entusiasmo com o filme da Monique Gardenberg.
O filme “Ó pai, ó” foi inspirado por uma peça criada e encenada pelo grupo de teatro Olodum. Ganhou forma sob a direção de Márcio Meireles. Nos anos 90, vi a peça mais de 15 vezes. Sonhava em fazer dela um filme. Era só tirar a história do palco e pôr nas ruas do Pelourinho. Amei a peça e amo o filme como ficou agora. A Monique fez um filme espetacular.
domingo, janeiro 14, 2007
Lula avalia que venezuelano "flerta com o autoritarismo"
KENNEDY ALENCAR
da Folha de S.Paulo, em Brasília
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que o colega da Venezuela, Hugo Chávez, comete erros político e econômico ao anunciar o plano de estatização e também ao patrocinar emenda constitucional que permitirá a reeleição ilimitada.
Oficialmente e por ora, o discurso de Lula e do governo brasileiro será o de respeito à soberania venezuelana. Nos bastidores, porém, Lula disse em conversas reservadas que acha que Chávez está ultrapassando os limites da democracia e que perderá apoio de setores moderados da esquerda mundial.
Para o petista, apenas alas radicais da esquerda internacional e do Brasil tenderão a idolatrar Chávez ainda mais.
Em descanso no Guarujá, o brasileiro chegou a dizer que o colega "flerta perigosamente com o autoritarismo", segundo apurou a Folha. E considerou que, ao usar na posse do terceiro mandato o lema castrista "socialismo ou morte", Chávez sinaliza uma disposição de radicalizar que pode isolar a Venezuela internacionalmente.
Na visão de Lula, o plano de estatização de empresas reduzirá os investimentos externos na Venezuela e poderá ter efeito residual na América do Sul. Mais: um retrocesso no crescimento econômico da Venezuela atrapalharia o objetivo lulista de maior integração entre os países da América do Sul.
Mas é na política que Lula acha que Chávez erra mais. O brasileiro sempre teve uma atitude condescendente com o venezuelano, mesmo discordando de algumas de suas posições. Para Lula, ao propor a um Legislativo dominado por seus partidários uma emenda constitucional para autorizar reeleição ilimitada, Chávez reforçará o argumento dos que dizem que ele planeja se perpetuar no poder como ditador.
O terceiro mandato de Chávez -- o segundo sob a Constituição de 2000 -- vai até 2013. Se aprovada a emenda constitucional, ele poderia ser candidato novamente à reeleição.
Em diversas reuniões reservadas, Lula pediu a Chávez moderação política. Ouvia do colega o argumento de que a oposição e a imprensa venezuelana eram golpistas.
Em 2002, houve tentativa frustrada de golpe contra Chávez. Dez anos antes, o próprio Chávez participou de outra tentativa de golpe que não obteve êxito -- contra Carlos Andrés Pérez, presidente à época.
Diante das ponderações do colega, Lula tendia a lhe dar razão. Em visita à Venezuela durante a campanha eleitoral brasileira, no ano passado, o petista disse que havia democracia no país. Lula atacou a oposição e a imprensa dos dois países.
Na próxima semana, Lula e Chávez participarão da Cúpula do Mercosul no Rio de Janeiro. Já há preocupação no Planalto com o tom que o presidente brasileiro e os demais países do bloco devem adotar em relação aos planos de Chávez.
Manter a declaração de que tudo é assunto interno da Venezuela poderá render internacionalmente a imagem de que o Mercosul aprova as ações de Chávez. Assessores internacionais do presidente estudam forma de Lula deixar claro, sem melindrar Chávez, que o Brasil e a maioria dos membros do Mercosul reprovariam eventuais abusos do venezuelano na política e na economia.
terça-feira, janeiro 09, 2007
Com a eleição do governador Jacques Wagner e aquela história de ter sido chamado de "hamster" por Lula em comício no Farol da Barra, ACM receia que o PT tente constrangê-lo durante a caminhada até o Bonfim. Para não ser provocado e não ter que reagir, faltara à festa, assim como o ex-governador Paulo Souto. O PFL será representado pelos deputados ACM Neto, Fábio Souto (filho de Paulo) e José Carlos Aleluia.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Lula nada tem a ver com isso. Não deu até aqui uma única satisfação pessoal ao distinto público. Só o pobre do Tarso Genro foi obrigado a dar - e aí derrapou naquela história de que não devemos ter "pressa neurótica". Em seguida, tomou um jatinho da FAB e decolou de Brasília que ninguém é de ferro e ministro de Estado é um sujeito muito ocupado.
Vá dizer que sem essa de "pressa neutórica" para a passageira cujo filho perdeu um transplante de fígado porque não chegou a tempo à mesa de operação. Ou para quem tem mofado até mais de 12 horas nos aeroportos ao longo dos últimos três dias. Ou para quem dormiu ao relento porque teve seu vôo cancelado e a empresa aérea lhe negou hospedagem.
Lula mantém distância da crise provocada pelo apagão do mesmo modo que nos últimos quatros anos fez questão de manter distância da crise provocada pelo aumento da violência urbana. Recusou a sugestão de criar no início do seu governo uma Secretaria Especial para combater o crime. Argumentou que tal providência aproximaria o problema dele. É um sábio!
De resto, a qualquer sinal de encrenca, ele manda chamar a Dilma, como o último presidente da ditadura militar de 1964, o general João Figueiredo, mandava chamar o Pires - no caso, o general Walter Pires, Comandante do Exército, pouco simpático à causa da redemocratização do país. A ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, é eficiente e pode muito - mas não pode tudo.
No último domingo dia 26, ela pode pilotar uma lancha de 20 pés, batizada de "Clara", pelas mansas águas da Bahia de Todos os Santos em Salvador. Estava acompanhada do governador eleito da Bahia Jacques Wagner (PT) e da mulher dele, Fátima. O marinheiro Sinho encantou-se com o pulso forte da ministra e com seus conhecimentos náuticos. Aproveitou para pedir:
- Bem que a senhora podia mandar asfaltar a rua onde moro na Ilha de Itaparica...
- Peça a Jaquito - respondeu Dilma. Ela é uma das poucas pessoas no mundo que chama Jacques de Jaquito. Lula chama de "Galego".
- Eu mandarei asfaltar - antecipou-se Fátima. O claros olhos dela brilharam com intensidade quando o marinheiro disse que é dono de cerca de 300 votos em Itaparica.
A se acreditar no que disse Dilma há pouco, o apagão "é um problema de simples solução e que vai ser resolvido no prazo mais rápido possível". Talvez mais rapidamente do que o asfalto da rua do marinheiro Sinho na ilha de Itaparica. O apagão dura quase três meses, é verdade. Inferniza a vida de milhares de pessoas e deve provocar a queda do ministro da Defesa.
Mas se Dilma sugeriu que tudo estará nos trinques em breve é porque estará, sim. Celebremos, pois, a promessa dela. Celebremos o fato de que, hoje, apenas pouco mais de 30% dos vôos decolaram com uma hora e meia de atraso. E celebremos também a revelação de Dilma de que não houve sabotagem nos aparelhos de controle de vôo do aeroporto de Brasília.
Por respeito à verdade e à ministra, é bom registrar que ela não garantiu a inexistência de sabotagem. Ela se limitou a dizer que "acha" que não houve sabotagem. Eu posso achar que houve - você também. Mas há de se reconhecer que o "acho" da ministra vale muito mais do que o nosso. Ela tem o crédito de afinal ter descoberto que o apagão é um problema simplérrimo.
Seria o caso de perguntar: se é tão simples assim por que não foi evitado? Ou se é tão simples assim por que não foi logo resolvido? Mas a ministra é uma das pessoas mais atarefadas da República e não tem tempo a perder com perguntas tolas. Nem os jornalistas. Vamos deixá-la trabalhar. Ao contrário do seu chefe, Dilma é mais de executar do que de jogar conversa fora.
No momento, uma vez que transferiu para Fátima a missão de asfaltar a rua de Sinho em Itaparica, Dilma tem um problema simples para resolver (o apagão aéreo) e um monte de problemas difíceis. Uma vez passadas as eleições, sumiu a fina camada de asfalto jogada às pressas sobre as estradas na chamada operação tapa-buraco.
O governo foi alertado para um quase inevitável apagão nos principais portos do país. E Lula quer que a economia cresça 5% no próximo ano mesmo sem cortar gastos como deveria e deixando para lá a reforma da Previdência. O rombo da Previdência bateu a casa dos R$ 42 bilhões e o governo finge que não vê - ou que é possível contê-lo sem conter gastos.
Por mais que Dilma não recuse trabalho, é muita coisa para uma pessoa como ela tocar praticamente sozinha. Ainda bem que do apagão aéreo ela se livrará rapidinho...
Do Blog de Noblat
- O que se pode fazer? Ela entra assim no Senado da República - resmungou Marco Aurélio de Melo, ministro do Supremo Tribunal Federal, ao ver há pouco a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) sentar na primeira fila de cadeiras do plenário do tribunal.
Helô veste o de costume - calças jeans e camiseta branca.
Nenhuma mulher pode entrar ali nesses trajes, segundo o regimento interno do Supremo. Nem mesmo é permitida calça comprida na altura da canela.
Mas vai criar caso com uma senadora - e ainda por cima com Helô...
O Supremo está julgando duas ações que pedem que seja declarada inconstitucional a cláusula de barreira, dispositivo que complicou muito a vida dos pequenos partidos.
Uma vez que não tenham alcançado determinado número de votos em certa quantidade de Estados, os partidos perdem uma série de direitos - inclusive grana e tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão.
Ou se fundem com outros nas mesmas condições ou se dissolvem. O PSOL de Helô está nessa situação - bem como o PC do B do presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo.
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