sábado, julho 26, 2008

Das interessantes da semana...


感霖羊!, upload feito originalmente por HEI !.

...como tá um clima de olimpiada, escolhi essa.

A lei não é para qualquer um


"Cabral soma 34 pontos na CNH e não tem carteira suspensa pelo Detran"

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2008/07/25/ult5772u442.jhtm


O pior de tudo isso é que meus amigos vivem me contando histórias de como fizeram alguma coisa fora da lei.

Alguns dão dinheiro para polícia, outros fazem uma reforma em casa sem licença, outros sonegam impostos ou compram produtos piratas e um monte de coisas que nem parecem importantes.

E eu vivo dizendo que é tudo por causa do exemplo. Se os governantes e os homens que têm poder dessem o exemplo, as pessoas não seriam encorajadas a fazer coisas fora da lei.

A sensação de impunidade é tão grande para quem tem dinheiro, que as leis parecem ser feitas somente para quem não tem dinheiro ou tem pouco.

Outro dia estava andando com um amigo e fomos atravessar a pé a rua da Consolação. Eu insisti para atravessarmos na faixa de pedestres. Ele já achou estranho e quando eu tentei convencê-lo a esperar o farol abrir ele já estava do outro lado da rua, rindo da minha cara.

Numa esculhambação geral, quem tenta fazer a coisa certa acaba ficando com cara de nerd ou de babaca. Nem sempre eu espero pelo farol abrir, mas outro dia recebi 2 hospedes dinamarquesas e elas ficaram chocadas com o jeito que atravessamos as ruas aqui no Brasil. Na Dinamarca eles só usam a faixa e mesmo numa rua sem carros, eles esperam pelo farol. Parece coisa de gente bitolada, mas se uma lei existe, deve ser respeitada mesmo quando não tem ninguém olhando.

Parece que lá, um político faz de tudo para não fazer nada fora da lei. Eles têm uma noção de que os políticos são os responsáveis pela manutenção da lei. Aqui parece que um sujeito quer ser político, justamente para poder ficar livre das leis.


Escrito por Duilio Ferronato às 10h11, copiado por João Fontoura às 0h32

sexta-feira, julho 25, 2008

California dreaming

Vida chata, a do Schumacher?

A Ferrari informa que o alemão está passando a semana em Fiorano testando a Califórnia, novo modelo da marca, a ser lançado no Salão de Paris, em outubro.

O carro, constatação óbvia, é sensacional.

E o site que fizeram pra ele também. Dê uma olhada
aqui e clique em "virtual test drive". Vale a pena.
Ferrari

Schumacher, nos míticos boxes de Fiorano


Copiado do blog de Fábio Seixas, às 23h51, que escreveu originalmente esse post às 11h16
Estou precisando trabalhar, me impor, uma disciplina. Vou tentar a partir de hoje ter uma assiduidade diária a esse blog, terei que postar uma palavra, uma imágem, escrever um texto, um ponto, um lik de indicação, quarquer coisa, mas terá que ser diário...

domingo, maio 18, 2008

Ata do Dia do Rango de Maio de 2008


Numa sombria e chuvosa tarde de domingo, 18 de maio de 2008, reuniram-se na casa de João B., n 75 do Condomínio Aldeia Jaguaribe, nós os integrantes abaixo assinados da Confraria Dia do Rango para degustarmos o cardápio de comida Jamaicana.

O dono da casa, registre-se que debutando a sua casa como anfitriã no Dia do Rango, nos recebeu alegremente com vinte e quatro unidades com 600ml cada de Skol, resfriada a uma temperatura próxima a 0 grau centígrados, porém com um pouco de sobressalto em razão da grande demora da chegada dos integrantes, que se deu por volta das 3 da tarde.

O DDR do mês de maio foi prejudicado por uma esbórnia realizada na noite do sábado que antecedeu a este dia, em que grande parte dos integrantes do DDR se entregou, deixando um desses, Mura, abatido em casa, sem condições de participar. A farra, não só deixou combalido o “moral da tropa” como também fez estragos no orçamento do mês de alguns.

Segundo a autora do relato do registro no Livro Ata, frise-se que como em muitas outras vezes, relatos tendenciosos e desconectados da realidade, afirma que “alguns caranguejos estão com síndrome de playboys”, fundamentando ela sua convicção em razão dos lugares freqüentados ultimamente.

Deixando a farra de lado e entrando no domingo do DDR propriamente dito, a comida foi servida por volta das 17h e 30min. O cardápio jamaicano previamente decidido, foi composto por: Meatlof, preparado por Fabiano e Juliana, Rice and Peas, by Iara I., Jerk Chicken, by Paulinha; Brown Stew Fish, by Marrom.



IMG_0724, upload feito originalmente por joaofontoura.



A sobremesa é um capítulo a parte, pois, mais uma vez, confiamos em Piriquito e ele para comprovar a má fama, não cumpriu com as suas obrigações com o DDR. Decidiu-se então que como punição, ele fará para o próximo encontro um brigadeiro jamaicano sem poder cobrar os custos para o restante do grupo.

Outra decisão que afetará o futuro do DDR foi a criação de um fundo de reserva para futuras aquisições de material permanente ou para indenizações por possíveis danos. Uma das sugestões foi de comprar uma lente para a máquina fotográfica de João F.

Sobre o que antecedeu a preparação dos pratos, fato que não podemos nos furtar do registro foi a confusão feita por Iara I. com a sua receita. Primeiro a dificuldade na tradução da receita que, originalmente na língua inglesa, contou com a ajuda de Beth, Piriquito e Rafael. Em seguida, já traduzida, um dos ingredientes essenciais para a preparação do prato era o tomilho. A autora, por desconhecer tal condimento, e através de livre dedução, achou que usando da sintaxe e eliminando as duas primeiras letras do ingrediente, não atingiria a semântica, e mandou ver, enchendo o arroz com milho.

Para se justificar, primeiro ela quis creditar tal “lapso” a falta de prática culinária, alegando ser uma mulher do século XXI que não tem tempo para dedicação às artes culinárias, esquecendo ela que tal problema não está na ordem das prendas domésticas, mas, é sim, um caso de estudo para Beth. Quando ela percebeu a inconsistência de seus argumentos, tentou carregar para o mesmo barco, Marrom, afirmando que ele também confirmou que tomilho e milho poderiam ser substituídos por compatibilidade, e Piriquito, que em edição recente do DDR, achou que poderia trocar leite por leite de coco.

O custo individual dessa edição ficou em R$ 16,00, sendo que o cálculo realizado por Marrom, e depois que todos pagaram, acabou sobrando R$ 15,00. Compondo assim, juntamente com o título de crédito da dívida de Luiza, o primeiro saldo em caixa do DDR.

Em seguida, utilizando-se da metodologia do ABC, ficou definido que a letra que nos guiaria a escolha para o tema da próxima edição seria a letra “A”. Diversas sugestões foram dadas e depois de algumas eliminações, sobraram para a rodada final de votação, comida da Argentina e da Antuérpia. Por quase unanimidade foi escolhida como tema para o próximo DDR, comida da Antuérpia.

Essa sugestão e posterior escolha foi um capítulo a parte nesse DDR, a proposta Antuérpia, foi de Piriquito, e foi dada, como de costume, na provocação, no mesmo estilo de outras, de sempre, como comidas terminadas em “ada” e “junk food”, porém dessa vez a assembléia resolveu acatar a sugestão, até pela excentricidade e possibilidade de adquirir novos conhecimentos. O problema é que a sugestão foi dada como se Antuérpia fosse um país e assim, através de uma pesquisa, pudéssemos saborear um cardápio típico daquele "país".





Enquanto Piri tentava localizar o tal “país”, primeiro dizendo que ele ficava no continente africano e depois como tivesse se enganado e agora com uma entonação de certeza absoluta, afirmou: “não, não, já estou ligado onde fica. Ele fica na Ásia, alí perto do Cazaquistão”, Tati, não perdeu tempo, foi a internet e descobriu que a Antuérpia é, na verdade, a segunda maior cidade da Bélgica.

Vale o registro da estupefação do irmão de João B. que após uma pequena aula sobre a cidade, não acreditava que “comemos mosca” deixando passar uma dessas.


No fim, outra decisão de peso e coragem do DDR, foi o indicativo de que seria proposto um processo judicial, denominado “Ação Monitória” em que com a cópia autenticada da Ata do DDR de outubro de 2006, na qual está a declaração da dívida, e a de setembro de 2007, onde está a ratificação da dívida, fundamentaria uma execução em desfavor de Luiza que há quase dois anos deve ao DDR R$ 21,00. Assim, com a propositura da ação e a consequente marcação de audiência para tentatica de conciliação, acabamos por definir como local para o próximo DDR a casa da própria Luiza.

Para encerrar, ficou decidido que, como Antuérpia não é país, mas sim cidade e, na impossibilidade de definirmos um cardápio típico de tal lugar (cidade), tomaríamos como tema, comida belga e que João F. faria um orçamento de cervejas belgas, já que são as melhores do mundo, para degustarmos junto com a comida.

Iara I.
Bianca L.
Gabriela P.
João F.
Tatiana B.
Juliana c.
Rafael M.
Fabiano A.
Ana Paula L.
Oiampí R.
João B.
Ricardo M.

quinta-feira, maio 01, 2008

Política, revolta, repressão, minorias, psicodelia, hippies, sexo, drogas & rock'n roll.

Quarenta anos depois do revolucionário ano de 1968, é possível sentir as conseqüências e mudanças sociais que vêm ocorrendo desde aquela época. Minissaia, homens com cabelos compridos, liberdade política e liberação sexual, por exemplo, apesar serem temas recorrentes atualmente, são apenas alguns resquícios das lutas das pessoas que se manifestaram em Paris, e cujo movimento acabou ganhando força em outros países.

Os nascidos após a década de 70 talvez não saibam da importância do ano de 1968 e, principalmente, do Maio de 68 para as gerações anteriores. Talvez não saibam também da importância dos eventos ocorridos nesse ano para as suas próprias gerações e para a conformação da sociedade contemporânea.

1968 é o ano do psicodelismo, da liberdade sexual, da luta dos negros, do feminismo, das reivindicações minoritárias. O movimento hippie fervilhava, chocando uma sociedade permeada por antigos padrões de moralidade. Estudantes iam às ruas protestar contra as guerras e a expansão imperialista.


É nesse ano que ocorre, na França, o Maio de 68, um dos momentos mais marcantes da história do país, que provocou impacto em diversos outros países, inclusive no Brasil.

Em maio de 1968, estudantes universitários franceses deram início a uma série de acontecimentos que tomaram uma proporção que nem eles imaginavam. Inicialmente, os estudantes protestavam contra uma estrutura universitária anacrônica, conservadora. “A universidade que freqüentam imita a sociedade, imita a fábrica” disseram sobre o período Angelo Quattrocchi e Tom Nairn, no livro O começo do fim, sobre Maio de 68 na França. Os estudantes erguem barricadas por toda a cidade e na conhecida “noite das barricadas” inúmeros carros são incendiados. A polícia reprimiu a manifestação severamente, entrando em confronto direto e violento com os estudantes.

A repressão policial, ao invés de por fim à manifestação dos estudantes, fez com que mais estudantes, além de camponeses, operários, professores, bancários e desempregados se unissem aos manifestantes. O que começou como um movimento estudantil localizado se transformou em uma greve geral envolvendo cerca de 10 milhões de trabalhadores que protestava contra a violência policial e contra o governo de Charles de Gaulle, então presidente da França. “A imaginação no poder” e “é proibido proibir” eram alguns dos gritos de ordem do movimento.

Diante de tamanha crise, a classe patronal entra em acordo com os sindicatos e garante um aumento salarial, mas os operários não abandonam as greves. No dia 30 de maio, De Gaulle, pelo rádio, apela pela ordem e anuncia eleições legislativas para junho. As coisas começam a se acalmar, e após a morte de um estudante durante os distúrbios no Quartier Latin, a crise estudantil chega ao fim. Não se pode dizer o mesmo da situação política. Apesar de sair reforçado das eleições legislativas, de Gaulle acaba por deixar o cargo em 1969, após uma derrota política.

O ano de 68 no mundo
A agitação política e estudantil não se limitou à França. É nesse ano que na então Tchecoslováquia acontece a Primavera de Praga. Alexander Dubcek é eleito ministro e propõe uma reforma na estrutura autoritária do país, um socialismo humanitário, uma verdadeira “desestalinização”. Nos Estados Unidos, estudantes protestam contra a Guerra do Vietnã.


No Brasil, os estudantes também vão às ruas. Em junho do mesmo ano, no Rio de Janeiro, a Marcha dos Cem Mil reúne além de estudantes, intelectuais, artistas e militantes políticos que se manifestam contra o Regime Militar e em memória a Edson Luís, estudante morto três meses antes por um policial. No Brasil, os estudantes também protestam contra a reforma universitária proposta pelo Ministério da Educação.

Os estudantes podem não ter derrubado as instituições políticas, mas com certeza fizeram com que elas tremessem. Para muitos historiadores e intelectuais, o mundo não foi o mesmo depois de Maio de 68.

É proibido proibir!

A década de 60 foi marcada por diversos acontecimentos cujas conseqüências são sentidas até os dias atuais. A emergência e fortalecimento do Feminismo, os movimentos negros e de homossexuais, que configuram a revolução comportamental ocorrida à época, são um reflexo das mudanças que estavam surgindo na sociedade, nos âmbitos cultural e político.

A Guerra Fria, a Guerra do Vietnã, o movimento de contracultura representada pelos hippies, a Revolução Cubana e independência de alguns países africanos serviram de terreno fértil para as manifestações contra os valores tradicionais, que estavam com suas bases enfraquecidas, e contra o sistema político estabelecido.

As manifestações culturais andaram no mesmo caminho das manifestações políticas, tendo como adeptos, principalmente, esquerdistas e anarquistas. Todas as reivindicações eram o reflexo da insatisfação de uma parcela da sociedade, que viviam à margem das decisões. Todo esse contexto serviu de terreno fértil para os acontecimentos de maio de 1968.

Força Estudantil

A movimentação de estudantes ocorrida em 1968, em Paris, descontentes com a disciplina e estrutura acadêmica conservadoras, gera o confronto entre jovens e policiais durante o mês de maio daquele ano.

Não apenas os problemas da Universidade de Nanterre ganharam destaque no centro das discussões, mas também a situação social e política do país, além do desgaste provocado pela guerra de independência de Argélia ganharam voz nesse embate. A estrutura da família, assim como a do Estado, foi contestada, buscando maior liberdade entre pais e filhos.

O movimento não influenciou apenas os jovens franceses contrários à situação vigente, mas também pessoas de outros países, que viram nas manifestações um momento importante de mudança e de protesto contra as ocupações imperalistas, sustentadas pelo capitalismo, a situação pós-Segunda Guerra, além dos conflitos sangrentos e ditaduras que estavam emergindo em várias regiões, inclusive no Brasil.

Até mesmo os meios de comunicação de massa foram alvo das manifestações. Vistos como espaço de manipulação da opinião pública, que divulgavam e idolatravam os valores do capitalismo, e consequentemente idéias contrárias ao socialismo, esses meios foram bastante criticados.

Nova Esquerda
Nesse momento, não só o proletariado era visto como agente de transformação social, mas também, e principalmente, os jovens, as minorias étnicas e os excluídos da sociedade burguesa eram forças importantes para a mudança da história. Herbet Marcuse, filósofo político e social alemão, foi um dos idealizadores da Nova-Esquerda (ou New-left), cujas idéias influenciaram milhares de pessoas e ajudaram a formar opiniões.

Arte e Música em 68

Na música e nas artes o ano de 1968 serviu mais como a sublimação do que aconteceu na década de sessenta (The sixties ou 60’s) e o que estava por acontecer como resultado de uma revolução da estrutura social e familiar, lealdades ideológicas e legados culturais.

O ano de 1968 em particular, em todos os continentes do mundo, aconteciam simultaneamente, o que gerou teorias conspiratórias de uma orquestração de manifestações, movimentos questionadores de comportamentos arraigados na sociedade. Foi um ano de ruptura do prosaico.



Swinging London

The sixties marcou o surgimento de um novo estilo musical que influenciou muito o que conhecemos hoje nos estilos pop, rock e na música eletrônica. Com os Estados Unidos imerso na campanha da Guerra do Vietnã e a Europa após a segunda Guerra e impulsionada pelos efeitos do Plano Marshall vivia um momento de prosperidade sem precedentes, numa euforia que se denominou de "swinging sixties". Nesse clima marcou o surgimento de grandes bandas como The Beatles, The Rolling Stones, The Who, Pink Floyd, e tantas outras.

A estética gerada ao redor dos 60's e na análise sociológica dos costumes pós-guerra foi um fascínio pela excentricidade, deslumbrante e hedonista da vivência da burguesia urbana, atualmente revestidos de uma aura de culto, em que as boates da moda explodiam ao som de músicas mod, lotadas por gente de todo planeta.

Nesse contexto, o movimento de maior impacto foi a Arte Pop. Artistas como Helio Oiticica, Andy Warhol, Yoko Ono, Roy Lichetenstein e Robert Indiana usaram irreverência e ironia em seus trabalhos. Warhol usava imagens repetidas de símbolos populares da cultura norte-americana em seus quadros, como as latas de sopa Campbell, Elvis Presley e Marilyn Monroe.

No ritmo de todas as mudanças dos anos 60, o cinema europeu ganhava força com a nouvelle vague do cinema francês, "Acossado", de Jean-Luc Godard, se tornaria um clássico, paralelo ao neo-realismo do cinema italiano, que influenciaram o surgimento, o cinema novo no Brasil, que teve Glauber Rocha como um dos seus iniciadores, contrastando com as caras produções da época e destacando a importância do autor em detrimento do formalismo e dos excessos técnicos, ao contrário dos estúdios de Hollywood.




No Brasil, mesmo sob a censura imposta pela ditadura e o que se seguiria nos chamados anos de chumbo, que foi o período mais repressivo da ditadura militar com a edição do Ato Institucional nº 5, em 1968, a explosão criativa e de grande qualidade da Tropicália, um movimento cultural de vanguarda e sob a influência da culura pop, influenciada principalmente pelos movimentos que aconteciam na europa. Os seus maiores ícones foram Os Mutantes, os baianos Tom Zé, Capinam, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia (esses quatro formavam Os Doces Bárbaros) e Waly Salomão, o piauiente Torquato Neto, Jorge Ben e o maestro Rogério Duprat.

Uma das descrições mais marcantes da juventude dos anos 60 é feita por Arnaldo Jabor numa de suas colunas (para assinantes), quando ainda escrevia para a Folha de São Paulo, afirma que o jovem ativista dos anos 60, não tinham a liberdade de expressão e pensamento como existe hoje, mas se sentiam com poder, donos do mundo, “ator de um tempo importante”, ao contrário dos jovens de hoje que ele considera um “fetiche de consumo”, que apesar da liberdade de expressão e da globalização, os jovens de hoje não se sentem mais com o poder de mudar o mundo.

Arnaldo Jabor:

Sobre o poder

Eu me sentia proprietário do sol, do mar. Ipanema era nossa, de um bando de pequeno-burgueses iludidos, mas era nossa. Era uma conjunção astral rara: os Beatles, o psicodelismo, a indústria nascente do jovem, a revolução utópica. Naquela época, de 59 até 68, éramos o ‘sistema’, éramos a lei e o desejo.


Sobre a liberação sexual
Vocês hoje são muito mais livres, apesar da Aids, mas vocês não têm uma coisa maravilhosa que vivemos aos 20 anos: a repressão. Vocês ficam entediados de tanta oferta fácil, o sexo perdeu a aura de novidade de antes. As meninas tinham pânico de engravidar, empacavam nas portas dos apartamentos, tinham de ser embebedadas para permitirem uma sacanagem mais caprichada.
Graças a Deus, fomos salvos pela pílula anticoncepcional. Foi um sol. As meninas passaram a dar. Mas não era esse ‘dar’ comum, desglamourizado de hoje, esse ‘fast sex’, não. Era um ‘dar’ ainda mutilado pelo temor do novo, ainda com perfume de pecado, ainda com o doce olho mágico do superego paterno, ainda era um sexo com sabor de crime.
E, mais, a menina não estava só ‘dando’, o rapaz não estava só ‘comendo’; era um ato político, sim, senhor; estávamos ali, no sofá-cama rasgado do apartamento emprestado, inaugurando um novo tempo, uma ‘era de Aquário’, sei lá, pois ainda não havia motéis, só permitidos a partir de 67. O motel matou o encanto da tesão proibida. Ali, no canto escuro da rua, entre dois andares do edifício, vivíamos a liberdade do Marcuse mal lido, pois éramos ‘moda’. E, mais, as moças eram mais atiradas que nós. Elas era ávidas do sexo sem barriga, eram guerreiras desbravando o amor. Ahhh... As mulheres do meu tempo...

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Matéria publicada no caderno +Mais da folha deste domingo, 24/02/2008.

Produtor fala sobre o polêmico "Muito Além do Cidadão Kane" e diz que a criação de uma TV pública no Brasil vem tarde demais

A tela fora do lugar

DIÓGENES MUNIZDA
FOLHA ONLINE

O professor britânico John Ellis, 55, do departamento de mídia e artes da Universidade de Londres, diz nunca ter dado uma "entrevista profunda" sobre o documentário "Muito Além do Cidadão Kane". Simon Hartog, diretor do filme, morreu em 1992, antes mesmo de a obra ser exibida no Reino Unido. Ellis tornou-se assim uma testemunha rara dos bastidores de um dos mais polêmicos filmes sobre a mídia e a política brasileiras. Transmitido pela primeira vez em 1993, no canal britânico Channel 4, o filme usa o empresário Roberto Marinho (1904-2003) como metonímia da concentração da mídia no Brasil -daí a referência a Charles Foster Kane, personagem criado por Orson Welles em "Cidadão Kane" (1941). Políticos como Leonel Brizola (1922-2004), Antonio Carlos Magalhães (1927-2007) e Luiz Inácio Lula da Silva -apresentado como líder sindical- falam sobre a emissora no filme. Hoje, ao comentar o governo Lula em entrevista à Folha, Ellis critica a criação de uma TV pública no Brasil. "Talvez seja tarde demais", pondera, por e-mail, de Londres. Completando 15 anos, "Muito Além do Cidadão Kane" nunca foi transmitido pela TV brasileira -nem poderia, por questões de direitos de imagem. Virou, apesar disso, ou talvez por isso, um ícone na luta pela democratização do acesso à informação desde os anos 90, quando já circulava em VHS nos sebos e nas universidades. O documentário, que custou cerca de US$ 260 mil [R$ 445 mil] à extinta produtora independente Large Door, na qual Hartog e Ellis eram sócios, já foi visto cerca de 800 mil vezes na internet. Nos fóruns da rede, é elogiado, criticado e ganha a alcunha de "a história proibida da Rede Globo".

FOLHA - O que acha de o governo Lula tentar erguer uma TV pública?
ELLIS - Talvez seja tarde demais para a criação de uma TV pública. O que ela mostraria na maior parte do tempo? Há, claro, sempre espaço para uma melhora da informação pública na TV, tanto em notícias, em programas factuais, quanto nos assuntos presentes nas novelas, e como eles são abordados. A experiência no Reino Unido mostra que a TV pública deve ser separada do governo. Esse modelo de TV pública é possível no Brasil?
Nenhum governo que eu conheço iria querer criar agora uma empresa de telecomunicações se não pudesse controlá-la diretamente. Especialmente agora, quando há muitas TVs espalhadas pelo mundo. O serviço público de TV na Europa foi iniciado em uma época em que a TV era uma novidade. Mesmo que a BBC seja separada do poder, quando a emissora foi realmente contra o governo em questões políticas específicas, o governo conseguiu reagir de maneira bem-sucedida contra essa oposição.
O sucesso da TV pública independente no Reino Unido não foi propriamente na área da política. Entretanto foi bem-sucedida na educação pública, sobre temas locais importantes, na participação social, na proteção do consumidor e até em melhorar o padrão geral dos programas no país.

FOLHA - O sr. acha que o documentário "Muito Além do Cidadão Kane" ainda é atual?
ELLIS - Ele descreve uma situação que evoluiu, mas não sei bem qual é a profundidade dessas mudanças. O filme é bem-sucedido também, com a ajuda de muitos arquivos que permitem fazer essa oposição, em contar a história do crescimento da dominação da Globo na mídia brasileira. Essa é uma história importante e deveria ser conhecida pelo menos por todos que estão estudando a mídia nas universidades e qualquer pessoa que estiver interessada na história política do Brasil.

FOLHA - Há quem diga que o Channel 4 encomendou seu documentário para atacar a Globo, que ameaçava entrar no mercado europeu de TV. Isso é verdade?
ELLIS - Definitivamente não. O objetivo do programa era justamente entender a TV no Brasil. No passado, o Channel 4 exibiu pelo menos uma novela da Globo ("Escrava Isaura"), mas a produção não foi um grande sucesso. Há uma enorme diferença entre a cultura das TVs do norte e do sul da Europa. A Globo teria mais chances em mercados como Espanha, Itália, Grécia ou, especialmente, Portugal, mas não no Reino Unido. A competição no Reino Unido vem das empresas norte-americanas e das empresas de Rupert Murdoch (News International, BSkyB e o conglomerado da Fox).

FOLHA - O filme foi proibido?
ELLIS - Isso não é verdade. A Large Door concedeu o direito de exibir o programa em eventos e em público a diversas organizações no Brasil. Não poderia ser transmitido pela televisão porque muitas imagens pertencem à TV Globo. Fiquei sabendo que o vídeo foi mostrado em muitos eventos públicos no Brasil. Ele foi feito por meio da lei britânica de direitos autorais, que permite o uso de trabalhos escritos e, por extensão, audiovisuais, desde que "com o propósito de fazer comentários e revisões críticas" [sobre aquela obra]. O documentário foi finalizado por Simon em março de 1992. Ele entrou em coma no início de junho daquele ano e morreu em 17 de agosto sem ter recobrado a consciência. Eu supervisionei a revisão do programa e a inclusão de uma entrevista para atualizar o filme, que foi ao ar em maio de 1993. No Brasil, talvez você possa considerar que o filme é proibido, já que a recusa da Globo em ceder os direitos de exibição de suas imagens significa que ele não pode ser transmitido por canais brasileiros.

FOLHA - O documentário é apontado por alguns como um produto manipulador, que usa uma falsa linearidade para induzir o público a acatar sua posição.
ELLIS - Toda representação "manipula" o público. O filme tem uma narração linear exatamente porque quer mostrar o crescimento do poder da mídia durante um período difícil da história moderna do Brasil. Ele foi feito para uma audiência no Reino Unido que não sabia nada sobre a história do Brasil, não se esqueça! Deveria haver outras narrativas sobre essa história também.

FOLHA - Nos últimos anos, o Brasil viu se intensificar uma guerra entre a Record e a Globo. O sr. tem acompanhado?
ELLIS - Não tenho acompanhado de perto esse essa história. Mas sei que duas empresas estavam interessadas em comprar os direitos de "Muito Além do Cidadão Kane" no Brasil quando ele foi mostrado pela primeira vez no Reino Unido. Uma era a própria Globo.Eles perderam o interesse quando disse a eles que poderiam comprar os direitos de TV, mas não as licenças para exibição em público e a distribuição de VHS, já que esses direitos já haviam sido concedidos a outras organizações no Brasil.A outra empresa era a TV Record. A igreja [Universal do Reino de Deus] já tinha uma filial em Londres naquela época. Mas percebeu que haveria uma disputa judicial com a TV Globo a respeito das muitas imagens retiradas da programação deles. Então decidiu não comprá-lo.

sábado, agosto 18, 2007

De Fábio Seixas, ontem (sexta, 17/08/2007), na Folha.
Quando tudo dá certo

Não bastasse o sucesso nas pistas, com a liderança do Mundial, Hamilton, veja só, sai agora com a filha do chefe

No meio do Mediterrâneo, lá onde azul e verde se confundem e o vento levante sopra, o Kogo navega e balança e balança...Kogo é um dos brinquedos de Mansour Ojjeh, trilhardário saudita que entrou na F-1 colocando dinheiro na Williams, fazendo-a grande, e que depois mudou-se para a McLaren, fazendo-a maior ainda, gigante. Kogo tem 235 pés, 72 metros, se preferir. Leva exatos 21 tripulantes, de capitão a camareiras -a diária, se você quiser alugá-lo na baixa temporada, sai por 420 mil. Leva, também, montes de convidados. Nos últimos dias, Hamilton é um deles. E não é difícil visualizar como estão sendo os finais da tarde do inglês nessas microférias da categoria. O Kogo balançando, o sol se pondo, um sorriso escancarado...
Antes, porém, "pause". E um leve toque na tecla "rewind". Até outro final de tarde de agosto. Em 2006. E em Istambul, para onde a categoria viajará já na semana que vem. Domingo, friozinho. Lewis e Anthony Hamilton batem na porta envidraçada do motorhome da Ferrari pedindo para chamarem Nicolas Todt. Só com a anuência do filho de Jean, até então chefe do garoto na GP2, poderiam entrar.
Nicolas demora a aparecer e os dois ficam ali, pacientemente esperando, sem serem procurados/incomodados pelos jornalistas e fotógrafos que vão e voltam, que passam sem olhar para o lado -na lógica perversa do paddock, um piloto que ainda não correu na F-1 e que não tem linhagem não é nada. "Fast forward". Um agosto depois Hamilton tem 22 anos e corre na F-1. Mais: alcançou marcas que nunca nenhum dos 650 estreantes que passaram pelo esporte havia conseguido. Mais ainda: com 65% do campeonato disputado, lidera o Mundial. Mais (é, tem mais): está de contrato novo, saída encontrada pela McLaren para satisfazê-lo.
E, incrivelmente, não pára por aí. No Kogo, está cumprindo seu papel de bom moço. A idéia da McLaren era promover um encontro entre Hamilton e Alonso para que eles lavassem roupa suja e deixassem tudo em ordem para um final de temporada sem sustos. O inglês atendeu prontamente ao chamado. O espanhol, até ontem, não.
Mas a cereja do bolo veio nesta semana. Não bastasse tudo isso, Hamilton, aquele que em agosto passado era um nada, está "ficando" com a filha de Ojjeh. Sara tem 18 anos e é uma espécie de Paris Hilton com verniz. Estudou na Suíça, é amiga de Jude Law e teve Michael Douglas fazendo discurso na sua formatura. Está de passagem marcada para Manhattan, onde estudará nos próximos quatro anos.
Pois é... Além de tudo, Hamilton conquistou a bonita filha do chefe. Dá para imaginar dias mais felizes na vida de um rapaz de 22? Não, não dá. E a impressão que tenho é que, quando as coisas começam a dar certo assim, nada consegue detê-las. Nem um bicampeão.

sexta-feira, julho 20, 2007

Hoje, 20 de julho de 2007, saí com Juliana Cohim para comprar os adereços para a confecção da fantasia que usarei na Festa do Aniversário de Piriquito, Maíra e Zé Gotinha que acontecerá amanhã.
Fomos a diversas lojas na Av. Sete, Carlos Gomes, Taboão e por fim na Le Biscuit da Bonocô.
Ao longo da manhã, circulava vários boatos sobre a morte de ACM.
Às 11h 40min, quando passava pelo Dique do Tororó, no semáforo em frente a Fonte Nova, sentido Barra, ouvindo a Band News FM (99,1Mhz) foi oficialmente noticiado o falecimento do Senador, após declaração do médico David Uip do Incor de São Paulo.
Segue abaixo dois post's, um, uma exelente análise de Reinaldo Azevedo sobre ACM, o outro, "Deus e o Diabo na Terra do acarajé", tirado do Blog de Noblat, que reproduz o texto da revista Playboy, edição 215 de junho de 1993, que traça um perfil de ACM.

ACM

Morreu o senador Antônio Carlos Magalhães (DEM-BA). Era um emblema de algumas das contradições da política brasileira, de que trato abaixo. De saída — e eu sou assim —, envio meu abraço solidário à família, em especial ao deputado ACM Neto (PFL-BA), com quem tenho uma relação cordial e de quem, divergências à parte, sou admirador. Ele não é um caso de filhotismo — ou, literalmente, de nepotismo — político. Tem luz própria e é, por merecimento, um dos representantes do povo da Bahia.

Os jornais se estenderão sobre a biografia política do senador, de aliado de Juscelino a principal caudatário, na Bahia, do golpe militar de 1964 e, depois da redemocratização. Chamado de “coronel”, não o era, no entanto, no formato tradicional surgido no Nordeste depois da Revolução de 1930, quando as elites locais procuraram se acertar com o poder central da República, mais moderno e urbano do que o poder essencialmente agrário da região. ACM representava, também ele, a modernização daquela sociedade oligárquica, até certo ponto estamental e patrimonialista. Ele conseguiu se fazer ouvir, na ditadura e na democracia, além das fronteiras do seu Estado. Sob o seu comando, a Bahia também se modernizou.

Isso não quer dizer que não recorresse aos métodos tradicionais de seus pares: formação de curral eleitoral, leite de pata para os aliados e pão duro para a adversários, a tradição do mandonismo e truculência no trato com os inimigos políticos. Mas, vejam só: foi peça-chave na transição do regime militar para a democracia, quando rompe com a herança da ditadura, que havia sido seqüestrada por Paulo Maluf, e ajuda a criar a Frente Liberal, que vai formar a Aliança Democrática, que elege Tancredo Neves para a Presidência no Colégio Eleitoral. por meio de Luís Eduardo Magalhães, foi vital também na formação da aliança PSDB-PFL, que retirou o país do caminho da africanização, com a eleição de FHC.

Personagem polêmica, reconhecidamente frio e calculista na manutenção de seu poder, podia ter um temperamento irascível e intempestivo a depender do caso. Parecia sempre definitivo no seu amor e no seu ódio, embora também eles pudessem ser um tanto volúveis. Nos dois primeiros anos do primeiro mandato de Lula, por exemplo, cobriu o novo mandatário de elogios. Foi se distanciando depois, caminhando para uma oposição mais aberta, até ver azedadas as relações quanto Jaques Wagner se elege para o governo da Bahia, com a impressionante ajuda da máquina federal. Com a sua morte, o DEM fica mais explicitamente antipetista e antigovernista. Não que o senador tivesse simpatia pelo PT. É que tinha o seu próprio jeito de fazer as coisas. No caso de Renan Calheiros (PMDB-AL), por exemplo, punha a sua amizade pessoal acima da questão política.

E, assim, chego rapidamente aos dias de hoje para fazer uma constatação que me parece óbvia: a democracia melhorou muito ACM, tanto quanto piorou terrivelmente seus adversários — ou, de fato, revelou a sua real natureza. Durante um bom tempo, ele foi um dos alvos do PT, quando o partido fingia ter uma agenda democrática, contra o mandonismo, “republicana”, como eles gostam de dizer. O resultado da trajetória petista é o que vemos aí e, em muitos aspectos, já pode ser percebido na Bahia de Jaques Wagner.

O petismo de Wagner é o que mais se parece com o que está no poder federal. Ele nasce do sindicalismo estatal — Wagner vem dos quadros da Petrobras —, esteio e verdadeira ossatura do poder do partido, traduzido em várias metástases — uma delas, os fundos de pensão, arrestados pela militância. Não creio que o atual governador da Bahia inaugure uma nova dinastia no estado — essa idéia e essa prática morrem com ACM Avô e não têm como ser reproduzidas por ACM Neto. O confronto baiano assume as características que a disputa pelo poder tem hoje no Brasil: luta contra o aparelhamento do estado, luta contra o Moderno Príncipe, luta contra o onguismo governista.

Quero dizer com isso que ACM e PT conseguiram, de fato, pôr a disputa política baiana em termos, digamos assim, contemporâneos. E aqui vai, claro, o aporte valorativo deste reacionário terrível, esse direitista incorrigível, deste ser que está sempre contra a redenção dos oprimidos: a herança de ACM na Bahia certamente vai se fragmentar em correntes, ainda que fluindo numa mesma direção, distintas. E, à medida que terão de lutar contra o aparelhamento do estado, elas vão representar as verdadeiras forças progressistas da Bahia, contra o reacionarismo petista. Não é só frase de efeito, mas fato: ACM era o atraso que se fez vanguarda. Seus heredeiros terão de lutar agora contra a vanguarda que se fez atraso. A verdadeira vanguarda do retrocesso.

Deus e o diabo na terra do acarajé

Anjo ou demônio?
Amigo ou inimigo?
Governo ou oposição?
Bajulador ou contestador?
Austero ou corrupto?
Ditador ou democrata?
Malvadeza ou ternura?

Há quatro décadas o país tenta definir os traços mais marcantes do baiano Antônio Carlos Peixoto de Magalhães, médico de formação, jornalista de profissão e político por devoção. Nas ladeiras estreitas e calorentas de Salvador ou nos gabinetes atapetados e refrigerados de Brasília, o perfil polêmico do governador (pela terceira vez) da Bahia ainda desperta ódio e paixão, provoca inveja e admiração, estimula adesões, cria temores – e sustenta uma discussão que parece interminável. Aos 65 anos, o mais agressivo político brasileiro sobreviveu a todas as tormentas do país desde o governo de JK, na década de 50. Agora, como líder de uma oposição inclemente ao governo Itamar Franco, já de olho na sucessão presidencial de 1994, atrai outra vez a fúria dos elementos. É a briga mais recente da aguerrida biografia de Antônio Carlos Magalhães – e brigar é o que ele sabe fazer melhor.

Eleito deputado federal em 1958, aos 28 anos, pela União Democrática Nacional, a hoje extinta UDN, indispôs-se com um dos principais caciques do partido, Carlos Lacerda, o governador do Estado da Guanabara a partir de 1960, e com o presidente Jânio Quadros, que chegou ao poder em 1961 com apoio udenista.

Brigou em seguida com o presidente João Goulart e conspirou para o golpe militar de 1964. Comprou briga, também, com as tradicionais lideranças políticas baianas, ao ganhar a prefeitura de Salvador e o governo do Estado apoiado nos comandantes militares. Trocou socos com deputados e tapas com general. Bateu-se pelo AI-5 e, depois, contra a linha-dura que, confrontando os generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, queria manter o país nas trevas eternas da ditadura. Batalhou pelo general João Figueiredo, na sucessão do presidente Geisel, e contra Figueiredo, quando o Palácio do Planalto adotou em 1984 a candidatura Paulo Maluf.

Abriu baterias, no mesmo ano, contra o ministro da Aeronáutica, brigadeiro Délio Jardim de Mattos, desestabilizando a base militar do malufismo e, na hora certa, botou o pé no estribo da Nova República. Trovejou no palanque das Diretas-Já e manobrou pelas indiretas no Colégio Eleitoral, como queria Tancredo Neves. Brigou contra a CPI da Corrupção, como ministro, e contra os corruptos, como governador. Brigou com a Constituinte que queria encurtar o mandato do presidente José Sarney, dando concessões de rádio e TV aos amigos do presidente. Brigou com a NEC do Brasil quando a empresa, fabricante de equipamentos eletrônicos, estava sob o controle do empresário Mário Garnero e se reconciliou com ela quando, num episódio controvertido, Garnero a perdeu para o amigo Roberto Marinho – o amigo de três décadas que repassou às suas emissoras de TV na Bahia a programação imbatível da Rede Globo (Garnero até hoje responsabiliza ACM pela perda da NEC). Brigou contra o primeiro ministério de má fama de Fernando Collor e submergiu, num silêncio eloqüente, no arrastão da CPI que varreu a caterva da Dinda do poder. Brigou com o governador fluminense Leonel Brizola, em defesa do turismo da Bahia, e com o prefeito carioca César Maia, para proteger o Carnaval de Salvador. Brigou contra Itamar vice, e vai brigar ainda mais contra Itamar presidente.

Com tanta briga, Antônio Carlos Magalhães fez amigos, ganhou certamente muito mais inimigos, definiu um estilo e consolidou uma marca: ACM é hoje a sigla política mais longeva do país, após a extinção do PCB, o septuagenário Partido Comunista Brasileiro. “O importante, na política, é dizer não”, ensina ACM, que garante não guardar ódio de seus inimigos: “Quem odeia é escravo de seu ódio, e por isso muitos de meus inimigos são meus escravos.” Nessa multidão ele inclui, com certeza, o senador Jutahy Magalhães (PMDB-BA), que não lhe perdoa a ingratidão com antigos amigos. “ACM é como pombo”, compara o senador. “No chão, ele come na mão da gente. No alto, caga na cabeça da gente.”

Ele comeu na mão do pai de Jutahy, o ex-governador Juracy Magalhães, que abençoou seu ingresso na política pela legenda da UDN baiana. E agora está sujando a cabeça do filho do senador, o ministro Jutahy Jr., da Ação Social, que ACM acusa de repassar verbas federais a prefeitos amigos em fim de mandato. “Não existe ninguém mais gentil do que ACM quando ele quer agradar”, cutuca Jutahy pai. “Ele sabia que meu pai adorava os netos e vivia dando presentes ao Jutahyzinho.”. ACM rebate: “Esse menino, o ministro, me beijava mais do que meu filho, o Luiz Eduardo. Só Freud explica...”

Outro notório desafeto, o deputado federal e ex-governador Waldyr Pires, acusa: “Antônio Carlos governa com o chicote numa mão e a bolsa de dinheiro na outra. Se houvesse uma terceira, seria a da bajulação.” Mesmo a oposição, porém, reconhece que nenhum líder civil do golpe militar de 1964, à exceção talvez de Carlos Lacerda, confrontou com tanta dureza os militares como ACM. Em 1965, deputado federal e presidente da Aliança Renovadora Nacional (Arena) baiana, ele trombou com o general João Costa, comandante da 4ª Região Militar, que pressionava a Câmara de Vereadores de Salvador. Num encontro no Palácio da Aclamação, diante do então governador Lomanto Jr., o general entrou ríspido na conversa: “Veja como você vai falar!...”, cortou ACM. No elevador privativo, estreito para tanta autoridade, o general levantou o dedo na sua cara e ACM explodiu: vergou o dedo com a mão direita e, com a esquerda, arrancou o quepe do general num tapa insubordinado. No Natal de 1968, poucos dias após a edição do AI-5, quando o governador Luís Viana Filho sofria pressão da linha dura do regime militar, o atrevido Antônio Carlos avisou num discurso na prefeitura de Salvador: “Não tenho medo do apito do guarda-noturno. Aqui não tem ladrão.”

Ele dizia não ter medo, também, do Serviço Nacional de Informações, o temido SNI. Em 1972, o general Carlos Alberto Fontoura, chefe do organismo, pediu explicações por escrito sobre um encontro com o cassado Juscelino Kubitschek no restaurante do Country Club, no Rio. ACM respondeu, confirmando e anunciando que ele e o ex-presidente haviam combinado um jantar para a semana seguinte: “Jantar este para o qual o sr. está convidado, general”, provocou o então governador da Bahia. O general não compareceu, mas reagiu com um telegrama ambíguo mostrando que o buraco era mais em cima: “Outra atitude não poderia esperar de V. Sa. o Sr. Presidente da República, general Emílio Garrastazú Médici. Assinado: Carlos Alberto Fontoura.”. Em 1979, contra as recomendações do SNI e seu chefe, general Octávio Medeiros, ACM cedeu o Centro de Convenções de Salvador para que a União Nacional dos Estudantes (UNE) fizesse seu primeiro congresso fora da clandestinidade.

No caso de JK, o chefe do SNI se mostrou muito mal informado. Juscelino era velho amigo do pai de ACM, e este se transformou num “embaixador” informal da Bahia junto ao presidente da República, quando se elegeu deputado federal, em 1958. Integrante da ala “chapa branca” da UDN, assim chamada porque fazia uma oposição moderada ao Partido Social Democrata (PSD) no poder, ACM passou a ser conhecido como “despertador de JK”: ligava todo dia às 7 horas para longas conversas com o presidente. Sua amizade o fez mensageiro da notícia de sua cassação, em junho de 1964. No exílio, JK lhe mandava cartas afetuosas, que ACM guarda com emoção e orgulho. No dia em que JK morreu, em 1976, enquanto o Planalto hesitava em decretar luto oficial, ACM ligou para o general Golbery, o estrategista-mor do regime, para avisar que iria ao enterro do amigo. Dias depois, outro chefe do SNI, o futuro presidente João Figueiredo, ainda mais atrevido, ousou interpelá-lo. “Fui ao enterro dele e irei ao seu”, respondeu ACM.

Nos anos de chumbo da era Médici (1969-1974), o clima sufocante da ditadura esmagava qualquer contestação. A repressão militar dizimava os dissidentes de esquerda. Não era nada prudente dar um emprego a eles. Apesar disso, a empresa que ganhou a concorrência da prefeitura de Salvador para construir o Viaduto dos Engenheiros, na gestão de ACM, tinha como diretor uma figura maldita para o regime: o ex-deputado Rubens Paiva, que meses depois seria “desaparecido” pela repressão. No auge do fechamento político, ACM era capaz de dizer que o AI-5 “não fazia mal a ninguém”, mas mostrava seu pragmatismo aos amigos mais próximos: “Se este país virar comunista, um dia, serei o maior líder de esquerda do Brasil.”

O escritor Jorge Amado, um marxista, engoliu em seco quando da segunda indicação biônica de ACM para governador, em 1979, e lhe telegrafou de Paris: “Sou contra você, mas não sou burro.” Mesmo quem era contra, mas não era burro, reconhecia que a estréia de ACM na administração mostrara que ele não era competente apenas na tribuna parlamentar. Prefeito biônico de Salvador aos 40 anos, ACM conseguiu que o Planalto mudasse a lei para antecipar em dois meses sua posse – assumiria, assim, dias antes que seu protetor, o presidente Humberto de Alencar Castello Branco, passasse o poder ao sucessor, marechal Arthur da Costa e Silva, seu inimigo. Com isso, ACM pôde chegar à prefeitura com os cofres cheios, em 1967, preparado para enfrentar a dieta de verbas imposta por Brasília. E conseguiu, em três anos, revolucionar Salvador.

A cidade de traçado antigo, encarapitada em morros de ruas estreitas, tinha um trânsito caótico e ladeiras tão íngremes que os ônibus com freqüência deslizavam de ré. Uma delas ganhou, por isso, o nome de Quebra-Bunda. ACM aproveitou o traçado dos rios e córregos que cortavam a cidade e abriu seis grandes “avenidas de vale”, interligadas por viadutos que fazem o tráfego fluir sem nenhuma preguiça ou susto. A gestão de ACM na prefeitura tornou-o candidato natural a governador, na eleição indireta de 1970. No governo Médici, quando o partido situacionista, a Arena, era sinônimo de ditadura, ACM, embora arenista, era um biônico popular. Levou a luz da hidrelétrica de Paulo Afonso para a capital, tirou a burocracia do centro histórico e a levou para o moderno Centro Administrativo, pavimentou estradas e livrou a Bahia da dependência do cacau, do qual o Estado tirava nada menos de 60% de sua renda. Surgiu o Centro Industrial de Aratu e, com a força de Médici no Planalto e de Geisel na Petrobrás, o Pólo Petroquímico de Camaçari. Indicado para um segundo governo biônico, em 1978, abriu uma nova linha-tronco a partir de Paulo Afonso, levando energia para a esquecida região do Vale do São Francisco, o interior mais pobre do Estado.

Entre uma sucessão e outra, ACM desafiou lideranças e atiçou ressentimentos, convencido de sua própria força. Desprezando aliados de outras campanhas, ungiu solitário o herdeiro Clériston de Andrade, presidente do Banco do Estado da Bahia, para sucede-lo na primeira eleição pelo voto direto, em 1982. O candidato morreu um mês e meio antes da eleição, na queda de um helicóptero. ACM, com esse episódio, parecia ter sucumbido na política, mas ressuscitou ao lançar para governador o nome de um político obscuro, dispensando acintosamente o apoio dos líderes no Estado. Contra todas as evidências, o deputado João Durval, secretário estadual de Saneamento, elegeu-se governador com 580 000 votos de vantagem sobre o candidato do PMDB, Roberto Santos. Durval era um enigma político e ACM sabia disso: “Elegi um poste”, reconhece hoje o criador, renegando a criatura, agora mais um adversário seu na arena política baiana.

À estrondosa vitória de 1982 seguiu-se a atordoante derrota de 1986, a maior da carreira de ACM. Os inimigos se juntaram e massacraram o então poderoso ministro das Comunicações, derrotando o seu candidato, Josaphat Marinho, e levando ao poder Waldyr Pires, do PMDB, com uma humilhante vantagem de 1,5 milhão de votos. ACM, às vésperas da eleição, chegou a brigar com o Ibope, duvidando da tragédia iminente. “Foi o nosso maior acerto – 32% de diferença”, rememora o diretor do Ibope, Carlos Augusto Montenegro. “Acertamos na bucha. Depois dessa, Antônio Carlos passou a respeitar as pesquisas.” ACM só não respeitou o governador eleito, que passou a viver à míngua de recursos federais. “As verbas foram bloqueadas em Brasília pelo ACM, que dizia que a Bahia, no meu governo, não teria nem pão nem água”, lembra Waldyr, contando que o presidente Sarney chegou a cometer a deselegância de visitar o Estado sem avisar o governador. O próprio Sarney admitiu a um amigo: “Eu não gostaria de ter um inimigo como ACM.”

O que ninguém previa, nem mesmo o PMDB, é que o sucesso de 1986 se transformaria em fiasco, dois anos depois: Waldyr Pires abandonou o governo para ser o vice de Ulysses na chapa do partido na eleição presidencial de 1989. O eleitor sentiu-se logrado e o governo caiu nas mãos do vice, Nilo Coelho, que se transformaria no alvo preferencial de ACM na sua campanha anticorrupção para voltar ao governo da Bahia pela terceira vez – agora, ao contrário das anteriores, purificado pelas urnas. Acusando Nilo Coelho de ter comprado fazendas, uma fábrica de cerveja, uma revendedora de automóveis e uma emissora de TV de 6 milhões de dólares após a saída de Waldyr Pires, ACM batia duro: denunciou que Nilo puxara 200 quilômetros de rede elétrica para dentro de suas fazendas e inventara o quilômetro de 700 metros. “Os outros 300 eram a comissão”, ironiza. “Tive que restabelecer o sistema métrico na Bahia.”

É pelo flanco da corrupção que os adversários tentam alvejar ACM, aparentemente sem muita pontaria. Como é que um político, só com o salário de ministro ou de governador, pôde formar o maior império de comunicação da Bahia?, questionam os inimigos de ACM. Nada se prova, até porque nenhuma dessas empresas está sem seu nome. O jornal Correio da Bahia, o terceiro mais vendido no Estado, com 20 000 exemplares diários, está em nome do outro filho, ACM Júnior. As emissoras no interior do Estado estão em nome de “pessoas amigas”, como as apresenta o próprio ACM. E a TV Bahia, que capta o sinal da Globo há cinco anos graças ao link direto entre ele e Roberto Marinho, é ou não é de ACM? “É e não é. É dos meus filhos. Eles é que usufruem.”

Os adversários batem também, por tabela, numa sigla subsidiária: a OAS (Olivieri, Araújo e Suárez), a segunda maior empreiteira do país, logo atrás da C.R. Almeida, com 20 000 funcionários, 100 canteiros de obras plantados no país e faturamento de 1,2 bilhão de dólares. Quando o dono da OAS, Cear Matta Pires, se casou com Teresa Helena, filha de ACM, a sigla ganhou uma tradução venenosa: “Obrigado, Amigo Sogro”. No seu primeiro governo, nenhuma obra foi contratada. No atual, alguns serviços foram ganhos pela OAS, porque atenderam ao preço mínimo, conforme exigência de ACM. A principal obra do Estado, contudo – a “Linha Verde”, estrada de 142 quilômetros unindo a Sergipe o litoral norte baiano, ao custo de 53 milhões de dólares – foi ganha pela maior concorrente da OAS no Estado, a Odebrecht.

A cobrança é implacável porque ACM, sempre que pode, deixa clara sua antipatia pela chamada “república das empreiteiras”. A um empresário que queria saber as razões dessa antipatia, ACM explicou: “Quando vocês cedem uma única vez e pagam comissão a um político corrupto, colocam sob suspeição todas as outras atividades da empresa, mesmo as mais honestas.” Foi a ele que alguns empreiteiros recorreram, em 1991, quando se assustaram com a gula inesperada de personagens muito próximas ao presidente Fernando Collor de Mello. A comissão de praze paga pelas empreiteiras tinha saltado de 14% para 20% ou 25%. ACM começou a perceber, então, o tamanho da influência de PC Farias sobre o governo, mas, segundo diz hoje, não avaliou bem o poder do tesoureiro sobre o próprio presidente – embora já existissem evidências dela. Ainda na fase de campanha, quando Collor atacava Sarney e ele era ministro das Comunicações, ACM foi chamado pelo candidato do PRN para uma conversa sigilosa, no Lago Norte de Brasília. Mas, em vez da Casa da Dinda, o encontro aconteceu na residência ao lado, sob o testemunho solitário do insinuante dono da casa – PC Farias.

Na fase de montagem do governo Collor, o ardor collorido do cacique baiano começou a desbotar quando o presidente eleito lhe anunciou, entusiasmado, o nome do futuro ministro da Justiça, Bernardo Cabral. “É o homem da Constituinte, o homem que Ulysses queria”, festejava Collor. ACM diz que tentou soprar o nome do médico Adib Jatene para integrar a equipe, mas desistiu ao saber que os alquimistas do Bolo de Noiva, o anexo do Itamaraty onde se articulava a estrutura do novo governo, tinham cravado Luís Romero Farias – irmão de PC – como secretário-geral da Saúde, antes mesmo da escolha do futuro ministro daquela pasta. No segundo semestre de 1991, como quem dá a senha, ACM começou a dar entrevistas em Salvador denunciando a roubalheira que tomava vulto sob o manto do governo Collor. “Rouba-se muito e pune-se pouco”, esbravejava.

Mas ele mesmo é cobrado, semanalmente, por sua forçada convivência com a malfalada classe dos empreiteiros. Sábado e domingo ele descansa com a família na casa do genro Matta Pires, erguida num terreno que ACM tem na praia da Penha em Mar Grande, na Ilha de Itaparica. É o encontro de rotina do genro e do sogro, ele garante, nunca do empreiteiro e do governador. “Mas ninguém acredita”, lamenta-se ACM, com ar resignado. Passageiro freqüente do jatinho Citation azul e branco da EBTA, a empresa de táxi-aéreo da OAS, ACM procura desfazer qualquer insinuação ou constrangimento ético: “Ela teve o melhor preço numa licitação pública”, argumenta. “E a fatura é paga através de publicidade na TV e no jornal de minha família. Acaba saindo bem mais barato para o Estado.”

Anos atrás, acusado de corrupção pelo deputado federal Elquisson Soares, do PMDB baiano, ACM o desafiou a comparar as declarações de renda de ambos. Exibiu a sua, o deputado não. “A Receita Federal foi investigar e descobriu que ele não declarava imposto de renda havia dois anos”, conta. Na CPI da NEC, na qual era acusado de infernizar a vida do empresário Mário Garnero para forçar a entrega da empresa ao amigo Roberto Marinho, autorizou por fax o relator Luiz Carlos Santos, deputado do PMDB paulista ligado a Orestes Quércia, a quebrar seu sigilo bancário. “Mas, não sei por que, o deputado engavetou meu fax”, diz ACM. Atento aos detalhes, recebeu um dia um pedido de audiência do bicheiro carioca Castor de Andrade, interessado em abrir uma indústria pesqueira. Sem saber direito que bicho ia dar, deu uma ordem inusitada à secretária: “Manda ele entrar, mas deixe a porta aberta...”

A porta de sua vida privada e familiar, contudo, ele nunca abre. Nem permite que batam nela. Nenhum de seus parentes, afirma, tem a carteira profissional assinada pelo Estado. Apesar disso, a oposição bate implacavelmente numa tragédia pessoal de ACM. A cada eleição, uma história antiga, o caso Juca Valente, é exumada com frieza de legista. Em janeiro de 1975, o primeiro marido de Teresa Helena, José Fernando Marques dos Reis Valente, o Juca Valente, de 27 anos, teve uma discussão feia com a mulher. Horas depois, foi encontrado morto com um tiro na cabeça, num caso definido oficialmente como suicídio. Apesar disso, o episódio passou a ser uma assombração política sazonal para ACM. A mãe de Juca, Maria Celina, está convencida de que o filho foi assassinado por haver desafiado a ira do sogro poderoso. Por duas vezes, em 1975 e 1988, ela tentou acionar a Justiça, mas em ambas o Ministério Público rejeitou o pedido, alegando falta de provas. “Isso é uma indignidade, que não respeita nem mesmo a dor pessoal de minha família e que a oposição insiste em explorar, da maneira mais vil”, revolta-se Antônio Carlos, quando o caso é mencionado.

Na eleição de 1990, Juca Valente ressuscitou mais uma vez. Nessa campanha de 10 milhões de dólares, um item indispensável no palanque high-tech de ACM era o telefone, pelo qual tomava conhecimento do tom empregado pela oposição no horário da propaganda política. E foi pelo telefone que ele soube, antes de fazer seu discurso num comício na cidade de Itapetinga, a 600 quilômetros de Salvador, que a campanha do ex-governador Roberto Santos, seu adversário direto, tocava mais uma vez no episódio Juca Valente. ACM desceu do palanque, sem falar aos eleitores, foi para o aeroporto, pegou o jatinho, voltou para a capital, gravou sua resposta e sua revolta no programa de televisão e retornou, no mesmo dia, para o interior.

Apesar da insistência com que é trazida à tona, a história da morte do genro ainda é capaz de produzir nele um misto de revolta e emoção, que o deixa com os olhos avermelhados. Mas nada se compara à dor causada pelo suicídio de sua filha caçula, Ana Lúcia, que morreu em novembro de 1986, aos 28 anos (poucos dias, aliás, após a derrota por 1,5 milhão de votos para Waldyr Pires). No cemitério, o choro incontido mostrou que nada fragilizou tanto o coração de ACM como a morte de Ana Lúcia, tida como a predileta entre seus quatro filhos.

Com marcas tão fundas em sua vida pessoal, Antônio Carlos não admite que se cruze a fronteira doméstica em nome dos interesses – maiores ou menores – da política. Na campanha de 1990, apareceu um certo dia em seu QG eleitoral uma loira vistosa, acompanhada de um garoto e de um advogado esperto. O rábula queria oferecer o depoimento da mulher, no horário político, acusando a paternidade irresponsável de um poderoso adversário político. Era a versão baiana de Miriam Cordeiro, a ex-namorada de Luiz Inácio Lula da Silva que o torpedeou na campanha presidencial de 1989. ACM conta que, enojado, mandou expulsar o trio de seu comitê: “Política não se mistura com vida privada”, advertiu.

Duro com gente de fora, o governador baiano é implacável com sua própria equipe. Quando o telefone toca, às 7 horas da manhã, o secretário premiado já sabe que é ele, ligando após a leitura dos jornais. Ele tem obsessão por telefone, o primeiro instrumento que pega de manhã cedo e o último que larga, já de madrugada. Com ele faz uma ronda, via DDD, pelos principais gabinetes de políticos e empresários e pelas redações dos principais jornais e revistas do país (leia quadro no final da reportagem). Dono de uma memória fotográfica, que anota nomes e datas com precisão de relojoeiro, ACM registra na cabeça mais de 300 telefones. Não gosta de reunião coletiva de secretariado e prefere dar espaço à sua equipe, mas sempre marcando sob pressão. Segue um mandamento de Metternich, o conservador chanceler austríaco que arrumou a Europa após a confusão das Guerras Napoleônicas, no início do século XIX: “A liberdade é atributo da ordem.” Traduzindo: vacilou, dançou.

Demitiu o secretário da Segurança quando, no dia 15 de janeiro de 1992, quinze turistas argentinos foram assaltados em Salvador. Recebeu o grupo em palácio, indenizou cada um com 1 000 dólares, pagou o hotel e os levou a passear pela cidade. O embaixador argentino em Brasília, agradecido, foi a Salvador para lhe entregar uma condecoração do país, o jornal Clarín de Buenos Aires festejou em editorial, dizendo que “vale a pena ser assaltado na Bahia”, e o governador acabou sendo recebido, por mais de uma hora, por um encantado presidente Carlos Menem.
No ranking da preferência popular, ACM disputa palmo a palmo com o cearense Ciro Gomes o título de melhor governador do país, afirma Carlos Augusto Montenegro, o diretor do Ibope. “ACM é um anjo para a opinião pública e um demônio para os políticos”, supõe Montenegro. Para uns e para outros, o veterano cacique aparece sempre impecavelmente trajado, em geral de terno e gravata, indiferente ao sol implacável da Bahia. Gosta de gravata listrada, especialmente com o azul, vermelho e branco da bandeira baiana, mas não suporta marrom. Não usa e não gosta de receber gente vestida com esta cor. É uma de suas raras superstições – como a preocupação de nunca ter 13 convidados à mesa generosa da ala privada do Palácio de Ondina, uma antiga casa de estilo colonial debruçada sobre o azul hipnótico do mar de Salvador.

Existem sempre convidados compartilhando o almoço ou jantar com ele e a mulher, dona Arlete. ACM passa ao largo dos pratos tradicionais da aromática cozinha baiana. Limita-se, hoje, a uma dieta de bifes grelhados ou carne branca com acompanhamento de legumes. Seu peso atual, 93 quilos, já dois pontos acima do recomendável, mas é difícil imaginar ACM sem aquela rotunda barriga que lhe dá uma silhueta de pai-de-santo ou de um coronel da política nordestina. E os devotos mais próximos sabem que, contrariando as ordens médicas, ele não resiste ao prazer proibido de duas ou três “punhetinhas” após as refeições. Calma! “Punhetinha” é o nome popular do “bolinho de estudante”, sobremesa que mistura tapioca, açúcar e canela e que faz Antônio Carlos se derramar de ternura. Marca registrada da baianidade inventada por Dorival Caymmi, os seus cabelos brancos combinam com o bigodinho ralo e estão sempre penteados para trás. Profissional do corpo-a-corpo na política, ACM só não gosta que lhe perturbem a ordem impecável dos cabelos. Nas campanhas eleitorais, além do telefone, existe sempre uma assessora próxima com um pote de gel e um pente para remediar um afago mais entusiástico ou uma inesperada corrente de ar.

Trabalhar com o governador da tórrida Bahia é, literalmente, uma gelada. Seu gabinte em Ondina não tem janelas e, além das estantes cheias de livros até o teto, exibe com destaque dois poderosos aparelhos de ar condicionado que dão a ACM e seus visitantes a sensação de que a capital da tropicália resvalou para algum ponto da gélida Patagônia: a temperatura ambiente não sai de 19 graus, enquanto do lado de fora o termômetro marca, como de hábito, mais de 32 graus. Atravessar aquela porta produz nos incautos um verdadeiro choque térmico.

Católico, devoto de Santo Antônio, ACM tem Ogum como seu orixá, o santo guerreiro do ferro e da guerra, cujos “filhos” são impetuosos, autoritários, desconfiados – como o próprio ACM. Ele diz que não liga para isso, mas a lenda fala mais alto. Em abril de 1988, o mais famoso pai-de-santo de Brasília, Pai Paiva, sacrificou um boi, quatro carneiros e oito galinhas-d’angola em oferenda a Xangô, o orixá da justiça. Descobriu-se que o boi vivo tinha sido ofertado por um ministro, Prisco Viana, da Habitação e do PMDB. Ministro baiano em terreiro só podia ser “despacho de umbanda” – e a ameaça acabou chegando, meio atravessada, ao terreiro de outro ministro e rival baiano, o desconfiado Antônio Carlos Magalhães, da Comunicações e do PFL.

Coincidência ou não, cinco meses depois um misterioso incêndio destruiu em menos de uma hora os seis andares do Ministério da Habitação, na W-3 Norte em Brasília. Só a garagem, no subsolo, ficou intacta. Queimou tudo, especialmente o arquivo pessoal de 25 anos de vida partidária de Prisco, incluindo fichas de eleitores, registros de conversas e anotações sobre episódios da política brasileira. Especialistas do candomblé dizem que os fatos estão relacionados, mas isto tudo pode ser apenas mais uma lenda baiana. ACM reagiu com uma gargalhada, quando ouviu a história de PLAYBOY: “Engraçadíssimo, nunca tinha ouvido falar nisso.”.

Quando se trata de ACM, acredita-se em lendas e duvida-se de fatos. Em fevereiro de 1989, ele sofreu um infarto violento na sua casa de Itaparica e sobreviveu por milagre. Na madrugada de sábado para domingo, ele via na TV o massacre de Mike Tyson sobre Frank Bruno, pelo título mundial dos pesos-pesados. O soco fatal do campeão pareceu atingir ACM em cheio: uma cólica fulminante lhe tirou o fôlego. Ele ainda viu Bruno cair e, minutos depois, era a sua vez de tombar no sofá. Atravessou a madrugada com a ajuda de comprimidos. Levado para o Hospital Português de Salvador, escapou mais uma vez, e por pouco, da morte. A cineangiocoronariografia já estava pela metade quando inesperadamente a máquina quebrou, interrompendo o exame. “Se tivesse continuado, o coração teria explodido, pois a região infartada estava muito fragilizada pela violência do infarto”, avalia ACM.

Essa ameaça só foi percebida ao ser levado de avião para o Instituto do Coração, em São Paulo. Estava tão debilitado que teve que aguardar seis semanas até enfrentar o bisturi. Nesse meio tempo não deixou de continuar bem informado. Era mantido longe do telefone, mas isso não evitava que as notícias de primeira mão chegassem até ele. No leito do Incor, ACM foi a primeira pessoa, fora do círculo familiar, que soube que o coração do octogenário Roberto Marinho também tinha sobressaltos, só que de outra natureza. Protegido pelo sigilo hospitalar, o dono da Rede Globo confessou ao amigo que estava apaixonado por Lilly de Carvalho, a ponto de se submeter a um novo casamento. Quando a hora da operação finalmente chegou, carregada dos riscos que o médico Antônio Carlos bem podia avaliar, ele teve um derradeiro encontro com seu maior apoio espiritual – o cardeal do Rio de Janeiro, Eugênio Salles, um amigo de quase 30 anos. A sós, rezaram juntos no quarto. “Mas não me confessei”, avisa ACM.

Passou nove horas e quarenta minutos na mesa de operações do Incor, em São Paulo, numa das mais difíceis cirurgias da carreira do experiente Adib Jatene, que já realizou mais de 20 000 operações desse tipo: três vezes o coração parou e ele, tecnicamente, morreu. Reanimado por equipamentos sofisticados, o músculo voltou a pulsar e ACM saiu dali com duas pontes de safena, duas pontes mamárias, um pedaço de pericárdio bovino e uma membrana de teflon implantados para reconstituir 20% do ventrículo esquerdo. A carga de anestesia empregada para uma cirurgia tão prolongada e complexa acabou alterando o seu agudo senso de realidade. Alguns dias após a circurgia, ACM despertou de madrugada num estado de franco delírio. Com a memória bloqueada por tanta química, imaginou estar num hotel. Levantou-se da cama, saiu do quarto, atravessou o corredor, pegou o elevador e desceu, sem despertar a atenção de nenhum médico ou enfermeira. Foi descoberto perambulando, desorientado, no estacionamento do hospital, vestindo apenas aquela ridícula túnica de paciente, amarrada nas costas por um laço precário que deixa o traseiro exposto ao vento.

Apesar disso, na época um deputado do PDT baiano estava convencido de que tudo não passara de uma armação ilimitada de ACM: “Isso é coisa do SNI”, afirmou. “Ninguém viu a cicatriz.” Mas ACM não perde tempo com subalternos. Ele gosta mesmo é de se nivelar aos maiores. No caso do PDT, bate de frente com o líder máximo do partido, Leonel Brizola, com quem já brigava no início dos anos 60, quando ambos freqüentavam o plenário da Câmara dos Deputados. “Brizola é um ingrato, deve a vida a mim”, brinca, relatando a cena em que apartou uma briga, em 1963, entre o então deputado do PTB de Jango e seu maior desafeto na época, o hoje senador capixaba João Calmon. Brizola partiu para cima de Calmon e foi contido por ACM, que conta: “Ele iria morrer, na certa, pois Calmon carregava sempre um revólver num coldre sob a axila.”

No ano passado, cansado de ver tanto dinheiro do governo Collor sendo canalizado para a “Linha Vermelha” de Brizola – a via expressa que liga o centro do Rio de Janeiro à Ilha do Governador -, ACM batizou de “Linha Verde” a sua rodovia do litoral norte baiano. “Não adiantou nada”, lamenta-se. “Dos 53 milhões de dólares, não recebi mais do que 4 milhões de repasse federal.” Em março, irritado com a propaganda do PDT na campanha do plebiscito, que incluiu ACM na panelinha dos parlamentaristas, ele mandou um fax bem-humorado a Brizola, pedindo para corrigir o equívoco. “Apesar de alguns adeptos do sistema, também sou presidencialista”, avisou, esclarecendo que o parlamentarista da família é seu filho, Luís Eduardo, líder do PFL. “Aliás, como é bom ter um filho que nos dá grandes alegrias!”, cutucou ACM, arranhando a fronteira familiar que ele tanto preza com uma alusão venenosa às dores de cabeça que Brizola volta e meia tem com sua irrequieta filha Neuzinha. E terminou com uma típica conclusão de Toninho Malvadeza: “Tenho motivos para acreditar que este equívoco não deve ter sido maldade de sua parte”, provocou.

Na Bahia de todas as crenças, existe um ditado muito vivo que resume a realidade fantástica da nação baiana: “Aqui, traficante se vicia, prostituta goza e cafetão se apaixona.” No terreiro do poder, Antônio Carlos Magalhães é um orixá que, na política, vicia, tem prazer e apaixona. Às vezes parece anjo, às vezes demônio. Um orixá capaz de enternecer, mas sem perder a malvadeza jamais.

Jornalista ligou, ele atende

Venha de onde vier, a ligação de um repórter para o telefone 247 0022, em Salvador, nunca será desperdiçado. Ali, no Palácio de Ondina, residência do governador, vai atender outro repórter, talvez o melhor repórter político do país. A voz firme e a risada debochada vão identificar Antônio Carlos Magalhães. Afastado há trinta anos das redações, ele soube se manter próximo dos jornalistas mais importantes do país.

Por isso mesmo, o ginasiano que estreou precocemente no jornalismo, aos 16 anos, cobrindo futebol para o vespertino Estado da Bahia, ganhou agora em maio o reconhecimento definitivo da profissão que abandonou em 1960 para se dedicar integralmente à política: ACM foi devidamente identificado, em on, como a melhor fonte política da imprensa brasileira. No livro recém-lançado Manual da Fonte – Como Lidar com os Jornalistas, o repórter Geraldo Sobreira entrevistou alguns dos principais colunistas, repórteres políticos e chefes de redação no eixo Rio-São Paulo-Brasília para chegar à informação de cocheira que todo mundo já tinha: ACM, para o bem ou para o mal, é o grande informante da política. (A segunda melhor fonte, segundo o livro, é o chanceler Fernando Henrique Cardoso).

“ACM é o primeiro escalão da notícia”, afirma Sobreira. “Ele sabe o que interessa e a quem interessa.”. O jornalista Marcos Sá Correa, ex-editor do Jornal do Brasil e hoje editor especial da revista VEJA, acrescenta: “Antônio Carlos não é um mero depósito de informações. É uma fonte que sabe o que é notícia, com capacidade de analisar e de saber o peso que as coisas têm.” O diretor da sucursal de Brasília da Folha de S. Paulo, Gilberto Dimenstein, completa: “É um político ultra-intuitivo, experiente, com inteligência acima da média.” Desde sua estréia como deputado federal, em 1958, ACM tem acompanhado de perto os fatos mais significativos de nossa História – às vezes centralizando a própria notícia, como no caso da resposta desaforada ao brigadeiro Délio Jardim de Mattos, que o acusava de desertar da candidatura Maluf, em 1984. “Trair a Revolução é fazer o jogo de um corrupto”, devolveu ACM, tirando o uniforme de “Toninho Malvadeza” da ditadura para vestir a camiseta de “Toninho Ternura” nos palanques das diretas.

ACM é o político que, como todo bom repórter, tem o talento e a sorte de estar ao lado da notícia na hora certa. Antes de redigir sua dura resposta ao ministro da Aeronáutica, ligou para o dono da Rede Globo. “Roberto, vou responder”, avisou, com a autoridade e a intimidade de um dos raros brasileiros dispensados de chamar o jornalista e empresário Roberto Marinho, seu amigo há 35 anos, de “doutor” – reverência observada, aliás, por qualquer presidente da República, civil ou militar. Ligar para “Roberto”, de fato, é uma rotina diária de ACM, que telefona para informar e ser informado.

Ele nunca deixa de atender ou retornar uma ligação, sem consultar agenda, apelando sempre para sua memória, que lhe permite relatar episódios com datas e detalhes fotográficos. Nos anos agitados de Juscelino, Jânio e Jango, nos bastidores do golpe de 1964, na sombra dos governos dos generais-presidentes, na transição para a democracia, no dramalhão do governo Collor, ACM movimentou-se com a agilidade de político e a curiosidade de repórter – e desenvolveu uma invejável capacidade de avaliação dos últimos 40 anos da política brasileira. Todas as sucessões presidenciais, a partir da queda de Jango, em 64, tiveram em ACM um profeta preciso. Até quando apoiou o coronel e ex-ministro Mário Andreazza, ele sabia que o vitorioso no Colégio Eleitoral de 1984 seria o nome do consenso – Tancredo Neves -, nunca Paulo Maluf. Por isso, antes mesmo da convenção do PDS, Antônio Carlos já manobrava a dissidência governista para apoiar a chapa da Nova República, a que ele acabou servindo como único ministro civil a atravessar todo o governo Sarney, na pasta das Comunicações.

Essa intimidade com o poder não evitou, porém, que ele cometesse o maior erro de avaliação de sua carreira: o apoio a Fernando Collor. “Ele sabia que havia ladroagem, chegou a pedir a cabeça de PC Farias, mas não acreditava no envolvimento do presidente, nem no impeachment”, diz um dos políticos mais ligados a ACM. Na verdade, acerta bem mais do que erra. Por isso, seu telefone não pára de tocar, mesmo durante as refeições. Nessas horas impróprias, ele tem um truque para abreviar a conversa: coloca uma garfada generosa na boca e só então pega o telefone. Fala mastigando com o repórter, para lembrar sem sutileza que a conversa não deve atrapalhar o almoço ou jantar. Mesmo quando o chamado é da Folha de S.Paulo, que costuma criticá-lo, ele não deixa de ser gentil com o repórter. “Teu jornal não gosta de mim, mas eu gosto muito de você”, declara, antes de entrar no assunto. Ele prefere também jantar em paz. O que não impede que, terminado o cafezinho, volte ao telefone, após a meia-noite, para mais uma rodada de conversa, madrugada adentro, com jornalistas dos grandes centros.

Fala tudo, sem constrangimentos, e apela pouco para o off, a notícia sem citação da fonte. Afinal, ACM é a própria notícia, fale o que falar. Alguns respeitáveis nomes da imprensa lhe atribuem a paternidade de uma impiedosa classificação de jornalistas em dois times distintos: os que querem favores, na forma de emprego ou dinheiro, e os que querem notícia. “O importante é que não se faça confusão, oferecendo favores a quem busca notícia ou dando notícia a quem quer favores” – teria sido esta a engraçada conclusão de ACM, que nega com veemência a autoria da frase e a visão indelicada para com a classe jornalística.

Com exclusividade para PLAYBOY, ACM listou as sete regras capitais de sua manual da boa fonte:

* ser bem informado;
* ter credibilidade;
* confiar no repórter;
* nunca colocar o repórter na pista errada;
* dar a devida importância a cada jornal, cada coluna, cada repórter;
* municiar o repórter para que ele não desperdice a ligação telefônica;
* fazer o repórter acreditar que ele é tão importante quanto o dono do jornal.

Nem sempre isso é possível. Tempos atrás, ele travou uma batalha divertida com Gilberto Dimenstein. Baseado num documento da Procuradoria-Geral da República, o jornalista disse que o governador da Bahia recebia uma aposentadoria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia sem nunca ter dado aula. ACM, de fato, embolsa a aposentadoria, mas não precisou provar que ela corresponde a aulas que tenha dado: uma ação popular contra ele movida na campanha de 1990 acabou prescrevendo. Ao ler o artigo de Dimenstein, respondeu com um telegrama pedindo que ele fornecesse “o atual endereço da senhora sua mãe para enviar a respectiva aposentadoria”.

Um assessor não entendeu o “atual”. Ele explicou: “É para o jornalista pensar que eu conheço o endereço antigo...” Dimenstein replicou, zombando do português precário da ofensa, que apelava para um “destinto (sic) jornalista”. ACM descobriu que o dicionário registra “destinto” como “sem tinta”. As provocações continuam. “Vejo que eu e o Dimenstein estamos pensando a mesma coisa do governo Itamar”, brinca Antônio Carlos. “No caso de ACM, o jornalista não deve ficar nem tão próximo que não possa informar, nem tão distante que não possa ser informado”, adverte Dimenstein. Na verdade, uma lição útil para qualquer repórter e toda boa fonte. E sempre saudável para o leitor.

sexta-feira, julho 13, 2007

A última batalha de ACM

Esta manhã, depois de ter sido visitado pelos colegas Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-AP), o senador Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA) olhou para uma das enfermeiras que o atendem na UTI do Instituto do Coração (INCOR) em São Paulo e observou abatido:

- Eu não vou ter mais condições de sair daqui, não é mesmo?

Em seguida começou a delirar e foi entubado pelos médicos. Delirou por pouco mais de 20 minutos. Recobrou a consciência. A hemodiálise diária faz o que os rins já não conseguem mais fazer. O intestino começou a pifar. O coração está cada vez mais fraco.

O estado de saúde dele agravou-se nas últimas 48 horas. Antes, os médicos cogitavam de lhe dar alta. ACM ainda ficaria se recuperando por mais três ou quatro dias em um apartamento do INCOR ou do Hotel Maksoud Plaza. Voltaria à Bahia. Ele fará 80 anos em 4 de setembro próximo.

Está dividida a opinião da equipe de oito médicos que cuida dele. Há os que acham que ACM ainda poderá se recuperar caso o intestino volte a funcionar. Há os que não acreditam mais nisso. A mulher dele, dona Arlete, os dois filhos (Junior e Teresa) e os oito netos já estão em São Paulo.

ACM está internado no INCOR há 30 dias. É a quinta vez que ele se interna ali desde março último. Nas quatro primeiras, de alguma forma ele comandava os procedimentos médicos. É formado em medicina, embora jamais tenha exercido a profissão.

Dava palpites no seu tratamento, reclamava dos médicos quando discordava da opinião deles e quase sempre estipulava o prazo em que admitia permanecer no hospital. Alegava ter compromissos na Bahia ou em Brasília. Recusou-se a fazer hemodiálise. Acabava impondo sua vontade.

Dessa última vez, não. O coração já não bombeava sangue suficiente para irrigar os rins. Submeteu-se de imediato a uma hemodiálise - e no dia seguinte teve arritmia e queda de pressão. O coração chegou a bater 170 vezes por minuto. A média ficou em 120. A pressão baixou até 7 por 4.

Sem poder mais tomar sedativos, ACM recebeu choques no coração para que ele voltasse a bater normalmente. "Vamos rezar para que ele resista", sugeriu um dos médicos do INCOR em conversa com um parente do senador. "Foi um exame duro, muito duro", admitiu depois o próprio ACM.

Há mais ou menos 10 dias, quando foi visitado por Tasso Jereissati (PSDB-CE), ACM lhe pediu que fizesse um discurso no Senado exaltando sua ligação com a Bahia. Jereissati fez. Ao receber, hoje, Renan e Sarney, ACM disse a eles que havia falado por telefone com senadores do DEM.

- Você vai sair dessa - garantiu a Renan, enrolado na história do lobista de empreiteira que pagou parte de suas despesas com a ex-amante Mônica Veloso, mãe de uma filha dele.

De tantas em que se meteu, ACM sabe que essa é sua mais dura batalha - e talvez a última. E ainda não perdeu a esperança de vencê-la. "Quero viver, quero viver", repetiu ele no fim desta tarde quando avistou um dos netos.

Do Blog de Noblat

quarta-feira, julho 11, 2007

J.K.C por J.K.C em 11/07/2007.

quem sou eu: Sou que nem Henry Miller. Tudo que eu quero da Vida é um punhado de sonhos, um punhado de livros e um punhado de amores.

[ Edson Marques ]

sábado, junho 16, 2007

Motorista bate Ferrari e abandona o veículo em via de São Paulo

da Folha Online

Uma Ferrari de cor prata bateu na manhã deste sábado na marginal Pinheiros, na altura da ponte do Morumbi, em São Paulo. Segundo testemunhas, o motorista entrou na pista local da marginal em alta velocidade.

O acidente aconteceu no sentido Castello Branco, e o veículo atingiu uma árvore. Quando a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) e a polícia chegaram ao local, encontraram o carro vazio. Algum tempo depois, a seguradora apareceu para retirar o veículo do local.
Ainda não há confirmação sobre as causas do acidente ou o motivo que levou o motorista a deixar o local.

sexta-feira, junho 15, 2007

J.K.C por J.K.C em 15/06/2007.
Eu tenho uma mãe que fala e um pai que quase sempre se cala. Um irmão que vive, e uma irmã que sente. Tenho também uma avó com cheirinho de colônia, um sobrinho bochechudo e uma tia bem desbocada. Tenho amigos de todos os jeitos. Tenho um espelho maior do que eu, um travesseiro gostoso e um punhado de segredos. Tenho vários livros de cabeceira, um vestido florido e muitas fotografias. Tenho saudades. Também tenho defeitos. E uma porção de motivos pra rir. Tenho as unhas roídas, um gato maluco e uma paciência de Jó. Tenho todos os cds de Zeca Baleiro, uma escova de dentes verde cana e uma tatuagem na nuca. Tenho sempre com quem contar. Tenho paixão por quibe assado e um pavor incontrolável por quase todo inseto com asas. Tenho guardada a primeira rosa que ganhei e todas as cartinhas do primeiro namorado. Tenho vinte e quatro anos, uma coleção de revistas que quase nunca leio e um baú bem grande no qual um dia ainda me escondo. No meio disso tudo, tenho ainda uma multidão de sonhos. (.............. vez por outra me perco entre eles ..................)

segunda-feira, junho 04, 2007

Quem é J. K. C. em 04/06/2007:

"Não tenho medo, não tenho ciúmes, não tenho pressa. Sempre me afasto das pessoas perigosamente normais. E acho que só quem salta inteiro no belo escuro azul profundo da vida é que pode viver de verdade.

[ Edson Marques ]"

Fonte: do perfil dela no orkut.

domingo, junho 03, 2007

Transcrevo abaixo, matéria da Folha desse domingo, que traz extamente o que eu penso do que faz um político bem sucedido. Nunca dizer não, praticar a humildade e aparar arstas.

Ontem tive um "piripaque" quando ia para o aniversário de Boréu. Tive que voltar da paralela com a cabeça estourando de dor e o corpo moido. Não sei o que foi, desconfiei de dengue, mas acho que não foi, pois acordei hoje sem dores e sem febre.

Falei a pouco pelo telefone com Thales, conversamos entre outras coisas, coincidentemene sobre o tema da notícia, a arte da política, em todos os níveis.

Segue a matéria:

Atencioso, Renan diluiu inimizades na Casa

Estilo conciliador do presidente do Senado explica a falta de disposição dos colegas para abrir um processo contra ele
Vitória do peemedebista na eleição para o cargo neste ano por 51 votos contra 28 só foi possível graças às traições no PSDB e no DEM

VERA MAGALHÃES
DO PAINEL, EM BRASÍLIA
O estilo conciliador e atencioso, a paciência ilimitada e a incapacidade de dizer "não" a aliados e adversários são características do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) que ajudam a explicar a falta de disposição de seus pares de levar a ferro e fogo um processo de quebra de decoro contra ele.São características cultivadas desde sempre pelo alagoano de 51 anos, que começou a carreira política no PC do B, foi um dos artífices da candidatura de Fernando Collor de Mello à Presidência, um dos idealizadores de seu impeachment, dois anos depois, e desde então foi aliado importante de todos os governos que se sucederam.
Nas palavras de um oposicionista, Renan "pratica a humildade". O decálogo do bom convívio inclui ainda "não dizer não a ninguém", "não ter arestas" e, mais importante, "não ter inimigos no Senado".
Graças a esse estilo de fazer política, a rede de influências de Renan extrapola seu partido, o PMDB, e lança teias sobre PSDB, DEM, PT e os partidos menores -que, somados, detêm menos de 30% da Casa.
Os pontas-de-lança do "renanzismo" fora do PMDB são os tucanos Arthur Virgílio (AM), Tasso Jereissati (CE) e Sérgio Guerra (PE), o Antonio Carlos Magalhães, do DEM, (BA) e os petistas Tião Viana (AC) e Aloizio Mercadante (SP). Todos fizeram parte de um almoço na semana passada, na casa do presidente do PSDB, em que, a pretexto de se discutir uma "agenda positiva" para a Casa, tentou-se construir um discurso segundo o qual não haveria provas de que Renan teve despesas pessoais pagas pelo lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior.
O suporte na oposição não é recente. A primeira candidatura de Renan à presidência da Casa, quando ainda tinha de duelar com o hoje aliado José Sarney (PMDB-AP), que queria ser reeleito para o cargo, e com o PT, foi gestada nos gabinetes de Arthur Virgílio, líder dos tucanos, e de José Agripino (RN), líder do ex-PFL, que dois anos depois se afastaria um pouco de Renan graças à disputa entre eles pelo comando da Casa.
A partir da chancela da oposição é que Renan foi ao então todo-poderoso ministro da Casa Civil, José Dirceu, dizer que tinha o apoio da maioria do Senado. Dirceu, então aliado de Sarney na frustrada tentativa de reelegê-lo, teve de ceder.
Desde então, a gestão do alagoano na presidência é marcada por afagos aos senadores. Na semana em que teve de discursar, da cadeira da presidência, para admitir uma relação extra-conjugal, Renan recebeu, por mais de uma vez, abraços carinhosos da senadora Serys Slhessarenko (PT-MT).
Trata-se de retribuição à atenção dispensada pelo presidente quando a própria Serys foi acusada de envolvimento no escândalo dos sanguessugas.
Um desses gestos lhe rendeu um dos apoios mais firmes, o de seu antes adversário ACM. Responsável pela primeira menção às relações entre Renan e Zuleido Veras, dono da Gautama, no Senado, em 2001, ACM deve em grande parte ao presidente da Casa o arquivamento da denúncia de que teria grampeado inimigos na Bahia, que ameaçava render ao baiano o segundo processo de cassação.
Não foi o único afago de Renan a ACM: sob sua gestão, o baiano presidiu a CAE e, agora, a CCJ, as duas principais comissões da Casa. Mais: durante sua campanha à reeleição, em 2006, Renan autorizou que ACM avançasse seu já enorme gabinete sobre um pedaço da contígua liderança do PMDB. Tanta deferência rende até hoje na bancada do DEM a desconfiança de que ACM tenha votado em Renan, e não em José Agripino, em fevereiro. O placar da vitória do peemedebista -51 votos a 28- já ajuda a entender a primazia que o peemedebista exerce na Casa.
As traições vieram tanto do DEM quanto do PSDB. Para os tucanos, um dos gestos de cortesia de Renan foi criar, neste ano, a Comissão de Desenvolvimento Regional, sob medida para ser presidida por Tasso. Um tucano dá mais pistas sobre o sucesso do alagoano: nunca dizer "não" a um convite, estar sempre disponível. Desloca-se humildemente da presidência aos gabinetes mais distantes só para discutir um projeto.
Para um petista, Renan é "o rei da moagem". O termo, segundo ele, significa conversa. Mais: é generoso, porque franqueia cargos para seus aliados na estrutura do Senado e do governo. Nesse quesito, chegou a criar diretorias só para abrigar indicados de Sarney e de ACM. Além disso, ajuda a negociar assuntos de interesses de oposicionistas no governo. No rol dos que já tiveram pleitos "adotados" por ele estão Edison Lobão (DEM-MA), que tem um aliado nos Correios, e Romeu Tuma (DEM-SP), o corregedor que se diz disposto a absolvê-lo.